15/07/2020

 

Resenha: O feminismo é para todo mundo

Título: O feminismo é para todo mundo - políticas arrebatadoras
Autora: bell hooks
Editora Rosa dos Tempos
Páginas: 175

"O feminismo é para todo mundo" foi mais um dos livros que li para a maratona literária #PRETATONA. Seguindo a ideia do título, bell hooks tenta nos dar uma narrativa mais acessível sobre o que é feminismo e a importância de levarmos suas políticas a sério. A obra foi originalmente publicada em 2000 e depois relançada em 2018, aqui no Brasil o livro é traduzido pela Ana Luiza Libânio e lançado pela Editora Rosa dos Tempos. 

A autora fala sobre cada ponto em que o feminismo toca em nossas vidas. A proposta é clara: todos precisam entender o verdadeiro feminismo para que se juntem ao movimento. Mas como fazer a mensagem chegar em todos? Ela inicia o livro dizendo que uma revolução feminista não se faz sozinha e pontua a necessidade de acabar com o racismo, elitismo e o imperialismo. Dessa forma, homens e mulheres poderão criar um espaço unido.

Nos primeiros parágrafos, bell fala sobre a confusão das pessoas ao definirem o feminismo. Tudo o que diziam era uma reprodução do discurso da mídia patriarcal, principalmente a falsa mensagem de que o feminismo é um movimento anti-homem. O apagamento de mulheres não brancas dentro do movimento também é bastante colocado durante a narrativa. Mesmo mulheres negras atuando como revolucionárias e aliadas da luta, elas não eram vistas como líderes.

"Estava claro para as mulheres negras que jamais alcançariam a igualdade dentro do patriarcado capitalista de supremacia branca existente"

O livro foi se desenrolando de forma fácil durante a minha leitura, hooks cita suas vivências para exemplificar grande parte da teoria feminista que ela expõe na obra. Isso para mim é fantástico, pois deixa evidente que ela sabe do que está falando, pois vivenciou grande parte dessas experiências.

Ainda no primeiro capítulo, bell hooks faz uma diferenciação entre pensamento revolucionário e o pensamento reformista. O pensamento revolucionário se tornou popular no meio acadêmico e por causa da linguagem difícil não saiu da bolha dos letrados. Uma pena na época, pois esses trabalhos ofereciam uma visão libertadora da transformação feminista e não recebia tanta atenção da imprensa, pois a mesma focou suas energias em falar apenas de igualdade de gênero no mercado de trabalho, esquecendo de dialogar sobre a desigualdade de classe.

Por outro lado, o feminismo na academia permitiu que pensadoras e escritoras ganhassem nota, como por exemplo, Toni Morrison, que não era muito lida na época, mas bell pôde usá-la como referência em seus trabalhos. O problema mesmo, como já disse ali em cima, foi quando a linguagem da teoria começou a ficar restrita ao grupo acadêmico. As ideias eram visionárias, porém, não alcançavam as pessoas  do lado de fora, o que, de certa forma, enfraquecia o movimento.

"Ensinar pensamento e teoria feminista para todo mundo significa que precisamos alcançar além da palavra acadêmica e até mesmo da palavra escrita"

bell hooks também reforça que o feminismo precisa ser presente em nosso dia a dia, para que essas práticas sejam naturalizadas. É preciso ter mais estudos feministas nas coisas que lemos, ouvimos e assistimos. Principalmente na educação infantil, escola e faculdade. Mas não pense que a autora ficou só nisso, ela escreveu com profundidade ao falar que uma pessoa feminista precisa entender o direito reprodutivo da mulher. Mais do que pedir a legalização do aborto, bell explica o porque precisamos dar condições para mulheres escolherem se querem ou não ter filhos.

"Se educação sexual, medicina preventiva e fácil acesso a métodos contraceptivos forem oferecidos para todas as mulheres, menos de nós teremos gravidez indesejada", ou seja, se a educação sexual de mulheres, ricas ou pobres, fossem uma das prioridades de nossos governantes, menos mulheres ficariam grávidas e menos abortos aconteceriam. É simples. Direito reprodutivo é uma questão de saúde pública, é necessário criar mais políticas que visam proteger a mulher de riscos.

No capitulo "Beleza por dentro e por fora", bell inicia lembrando de que as mulheres, jovens ou mais velhas, são socializadas para acreditarem que o nosso valor está na aparência, e esse é mais um pensamento sexista.

"A revolução do vestuário e do corpo criada pelas intervenções feministas fez com que mulheres aprendessem  que nossa carne merecia amor e adoração em seu estado natural"

A revolução na industria da moda, saúde e beleza se deu a partir da luta feminista. No movimento existem mulheres de todos os estilos e gosto, o capitalismo precisou se adequar a isso. Grandes marcas precisam se adequar a essas mudanças ou podem perder para as mulheres que criam seus próprios produtos. É nesta parte que entendemos que as mulheres feministas precisam ocupar todos os espaços, para que sempre tenhamos alternativas. Assim, o movimento se fortifica e mulheres podem continuar consumindo produtos sem praticar o auto-ódio.

"Criticar imagens sexistas sem oferecer alternativas é uma intervenção incompleta"

Há assuntos neste livro que ainda não foram explorados de forma correta dentro da mídia de massa e que seria bastante interessante que mais pessoas falassem sobre. Como por exemplo, os relacionamentos abusivos entre pais e filhos. Quando bell fala que mulheres também podem ser sexistas e abusivas, é algo certeiro, pois a mídia sempre menciona a desigualdade de gênero e/ou coloca a mulher como sexo frágil, sendo que há muitas mulheres que praticam atos de violência e são sexistas com outras mulheres. Abrir essa discussão nas rodas de conversa abre caminhos para criarmos uma comunidade mais amorosa e mais ciente de seus direitos e deveres.

O progresso no movimento feminista permitiu que as pessoas se atentassem ao fato de que violência doméstica também acontecia em relacionamentos homo afetivos e contra crianças. Focar apenas na violência contra mulher não ajuda o movimento a progredir porque é preciso acabar com TODAS as estruturas de violência. Mulheres também podem ser violentas e perpetuar esses comportamentos através de seus filhos. A partir do momento em que aceitamos o nosso papel dentro desses problemas, conseguimos acabar com eles.

"A violência patriarcal em casa é baseada na crença de que só é aceitável que um indivíduo mais poderoso controle outros por meio de várias formas de força coercitiva"

Aqui nesta resenha eu digitei e digitei, mas ainda não falei nem metade da mensagem de bell hooks em "O feminismo é para todo mundo". Recomendo que vocês leiam também para espalhar a mensagem de forma ainda mais acessível. A autora recomenda que façamos como as pessoas que saem batendo nas portas para falar de religião, que possamos dar essa mesma importância ao movimento para que a convivência entre nós melhore.

Ainda que a intenção da autora seja trazer uma linguagem fácil para o seu livro, acredito que ele ainda não é o ideal para alcançar as pessoas de todas as classes. O trabalho ainda é longo. Façam resenhas nos blogs, espalhem folhetos, discuta em seu canal no YouTube e reflita suas atitudes no dia a dia. Deixe que as pessoas perguntem sobre essas perspectivas.

E isso não é só para as mulheres cis, é para homens cis e LGBTQI+ também, apesar da bell hooks não falar de pessoas trans no livro (é algo para se discutir), a proposta serve para todos. Desde o início, o movimento feminista deveria ter trabalhado com alternativas que incluísse o papel do homem na luta contra o sexismo, porém a mídia focou no pequeno grupo anti-homem e só enfraqueceu os ideais revolucionários que beneficiaria todo mundo. Precisamos reverter essa situação!

Assim como ficou claro para mim, eu espero que também fique para vocês: O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO.

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

10 comentários:

  1. Simplesmente adoro quando obras assim são resenhadas e divulgadas. Infelizmente muitos têm uma visão ridiculamente deturpada sobre o que é feminismo então é importante que todos entendam a mensagem da forma correta, ainda mais porque pelo que tu disse, a autora tem total convicção sobre o que diz.

    Abraço! ♥
    Larissa

    Blog "Parágrafo Cult"

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  2. Oi, Bruna como vai? Livros assim precisam e devem ser lidos por todos. Quanto maior a divulgação, consequentemente maior será o número de leitores que virão ler a obra. Sua resenha ficou espetacular, parabéns! Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  3. Oi, Bruna!
    Eu leio tanta ficção, que às vezes esqueço que os livros não fictícios podem trazer leituras igualmente maravilhosas!
    Só pelo título já tinha me interessado, e sua resenha contribui bastante para isso!
    Vou salvar a dica :D

    Estante Bibliográfica

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  4. Esse livro me pareceu bem didático, do tipo que é necessário ler e refletir, e sem dúvida, depois de lê-lo é possível transformar a sua própria maneira de pensar.
    Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

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  5. Olá, Bruna.
    Antes de mais nada parabéns pela resenha. Que resenha! Eu estou cansada de ver mulheres que se opõem ao feminismo acredito que porque não saber o que é. Uns tempos atrás fiquei de cara ao entrar em um blog que eu frequentava há anos e dei de cara com uma postagem da blogueira falando o porque não era feminista. A ideia estava toda errada. E o pior foi ver que muita gente estava comentando que concordava com ela. É preciso mais livros assim e de nós nos posicionarmos e fazer a mensagem chegar até todos.

    Prefácio

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  6. Acho muito válida as leituras como essa. Pois como a própria autora falou, o que muitas pessoas falam sobre feminismo, na verdade é algo que aprenderam no patriarcado, então, não é correto, ou está distorcido.
    Não conhecia esse livro mas parece ser ótimo.

    www.vivendosentimentos.com.br

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  7. "O feminismo é para todo mundo!" E é mesmo! Eu amei essa dica de leitura e vou até furar a promessa que eu tinha de não comprar livros esse ano, pois esse livro tem que entrar na minha estante. É um livro necessário nos dias de hoje e além. E ela tocou num assunto que dói, mas é verdade, que até mulheres podem ser violentas e sexistas, mas ninguém pensa nisso.
    Bjks!

    Mundinho da Hanna
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  8. Oi Bruna,
    Que senhora resenha! Um livro, uma resenha necessária.
    Gostei bastante da proposta da obra e precisamos levantar cada vez mais essa bandeira feminista, porque ainda tem gente que não sabe o verdadeiro significado da palavra e o quanto lutar por direitos iguais é importante.
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  9. Oi Bru, tudo bem?
    Adorei o seu texto! Esse livro está na minha wishlist de leitura e já deu pra ver o quão importante ele é. E é fundamental que a discussão permeie raça e classe, porque olhar só pro feminismo branco classe média não adianta, é raso demais (e muitas vezes engolido pelo capitalismo e patriarcado com uma falsa ideia "girl power").
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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