01/07/2020

 

Literatura Africana: Paulina Chiziane



Na temporada 17/18 – achei que nunca descreveria uma época assim se o assunto não fosse futebol – eu tive a mais incrível experiência da minha vida em um intercâmbio de quase um ano em Moçambique, talvez a colônia portuguesa que menos perdeu sua essência original. Afinal, em terras africanas, não há raíz que não batalhe para ser devidamente conservada.
Lá eu presenciei momentos mágicos e sobrevivi a aventuras insanas. O começo foi incrivelmente complicado. Mas, natural, leva um pouco de tempo para pegar o andamento das coisas, mais precisamente de Maputo, capital, onde eu vivi todo esse tempo. E foi na segunda metade de minha estadia que decidi pesquisar a vida e a história do país, de sua capital e de seus personagens expoentes. E é a partir daqui que começa a história que quero contar.

O Clã das Pretas criou um desafio de leituras chamado ‘Pretatona’, que como o nome já diz, estipula um itinerário de livros com protagonismo preto. Este protagonismo, definitivamente, é um lugar de fala em que eu não entro.  Mas, presto todo meu apoio e respeito a uma causa que envolve literatura juntamente da figura preta e feminina. Âmbitos esses que tem minha profunda admiração. E existe alguém que precisa ser lida, e que tem uma obra que deve ser contemplada. É uma mulher, preta, moçambicana, viva e muito presente. Se me permitem...

Interessei-me pela história de Paulina Chiziane quando fui convidado a participar de um espetáculo litero-musical em Moçambique, com o ator brasileiro Expedito Araújo e com a atriz moçambicana Melanie de Vales – atriz de um excelente filme chamado ‘Comboio de Sal e Açúcar’, outra recomendação que solto por aqui – onde contemplávamos a obra de escritores nativos de países lusófonos. Recitei um trecho de um livro chamado ‘Balada de Amor ao Vento’, que era de uma beleza estonteante e que me aguçou o desejo de saber e ler mais. Foi uma enxurrada de informação que me fez ter certeza que a figura de Paulina está além de mais uma poetisa africana. E explico.

A escritora, que hoje tem 65 anos, é uma das maiores e melhores manipuladoras da língua portuguesa, talento recebido por um completo acaso. Quando nasceu em Maputo, na época chamada Lourenço Marques, falava os dialetos usados na época: Chope, Ronga e o mais popular deles, Changana. Aprendeu a herança dos portugueses em uma escola religiosa – atividade obrigatória no período colonial – e a curiosidade a levou ao curso de linguística da Universidade Eduardo Mondlane, faculdade mais popular do país. E é dado o início a uma juventude de lutas! Paulina foi uma das primeiras e poucas mulheres a se associarem a uma frente política e teve coragem para se desvincular da mesma quando achou que devia, mesmo contra pressão dos companheiros de partido.

Niketche - uma historia de poligamia (Portuguese Edition ...Na política ou fora dela, sua luta sempre foi a favor da liberdade feminina e de que a poligamia deveria ser normalizada não só para homens (que quando não a fazia legalmente, fazia ilegalmente). Dessa batalha surgiu o seu maior filho: Niketche – Uma História de Poligamia. Ganhei este livro no natal que passei por lá, de um amigo também brasileiro. E foi, sem duvida, a leitura mais significativa que me passou os olhos. E digo isso literalmente, pois são ‘signos’ ou ‘símbolos’ as maiores referências nessa escrita densa de Paulina. Simbologia que já começam pelo título: Niketche é uma dança popular do norte do país, que ela mesma descreveu como ‘a dança do sol e da lua’. A narrativa nos entrega uma relação, claro, poligâmica em que todas as mulheres moçambicanas envolvidas representam alguma peculiaridade geográfica do país, enquanto o único personagem masculino é a representação da sociedade, como um todo. Já conseguimos sentir por esses pontos as tonicidades que o livro traz, não? Essa obra é um manifesto de sororidade, e um aviso de que a justiça e a liberdade feminina precisam existir concomitantemente, e para ontem!


GRIFO NOSSO: “Eu, mulher: por uma nova visão do mundo”, de Paulina ...Paulina, como mulher africana, já viveria naturalmente as margens. Até porque, quando se fala em literatura moçambicana, para muitos o primeiro nome que a memória busca é o de Mia Couto, homem branco. Claro, não menos talentoso por isso. Mas mesmo com o monopólio de Mia nas premiações literárias, em 2003 ele foi obrigado a dividir seu troféu com Paulina. Isso a tornou a primeira mulher premiada internacionalmente do país. O próprio Mia Couto a respeita como uma verdadeira heroína - que realmente é. Apesar de fora da política, Paulina foi frente de diversas discussões a favor da pauta feminina. Todo o continente africano é demasiadamente machista e por vezes ofensivo, literalmente, com as mulheres. Mas se hoje elas ainda podem comemorar uma caminhada digna e cultivar a esperança de viverem dias melhores, devem tudo isso a trajetória de Paulina Chiziane.

Paulina se aposentou em 2016 dos livros, contos e poemas. Alegou estar cansada de ser brava em toda batalha que lhe era dada. Extremamente compreensível. Carregar o peso da liberdade da mulher africana nas costas não deve ser fácil. A parte poética disso tudo é saber que ela venceu guerras, por ela e por todas suas irmãs, usando como arma não as famosas AK-47 estampadas na bandeira moçambicana, mas sim seu papel, sua caneta, e seu português (quase) religioso.

Renan Augusto Dias
Instagram: @renanaugusto.dias

6 comentários:

  1. great post!thank you for your share!Love it!
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  2. Oi Renan, tudo bem?
    Que post interessante, ainda mais por trazer sua vivência lá também.
    Eu não conhecia a autora, mas achei fantásticas as pautas que ela apoia. Sabemos que mulheres negras são ainda mais oprimidas, e ver obras que amplifiquem essas vozes e falem sobre suas dores é muito importante, pra que a gente possa entender melhor e abrir os olhos enquanto sociedade.
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  3. Ela usou a arma que realmente faz a diferença no mundo, né? Adorei conhecer um pouco da história dela! Obrigada por compartilhar com a gente! ♥

    Beijos, Carol
    www.pequenajornalista.com

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  4. Oi, tudo bem? Belíssimo relato o seu. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  5. Oi Renan,
    Confesso que não a conhecia, mas sou grata pela sua postagem, pois é o tipo de literatura e de pessoa que precisamos espalhar pelo mundo sim. E é exatamente o que você falou, podemos não ter propriedade para falar sobre certos assuntos, mas o apoiamos e o respeitamos.
    beijo
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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