Resenha: Para educar crianças feministas - um manifesto

Título: Para educar crianças feministas - um manifesto
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Editora Companhia das Letras
Páginas: 57

Para educar crianças feministas é o segundo livro que leio da Chimamanda Ngozi Adichie, e assim como no livro Sejamos todos feministas, não levei mais do que uma hora para finalizar a obra. Essa leitura foi feita para o desafio #PRETATONA e concluí na semana retrasada. 

Chimamanda não decepciona com sua linguagem fácil e acessível. Isso me faz lembrar sobre o que bell hooks diz em seu livro, O feminismo é para todo mundo, que os pensamentos feministas devem ser de fácil acesso a toda população. Chimamanda Ngozi Adichie está fazendo um ótimo trabalho quanto a isso. 

“Para mim, o feminismo é sempre uma questão de contexto. Não tem nenhuma regra”

Quando sua amiga se tornou mãe, Chimamanda recebeu um pedido da mesma: como criar uma filha feminista? Em forma de carta, a escritora nigeriana fez suas sugestões com base naquilo que viu e viveu. Através de 15 partes, mergulhamos em uma perspectiva que acredito ser pouco pensada quando se trata de criar filhos (falo com base nas minhas vivências pessoais). Geralmente, crescemos e conhecemos o feminismo, mas a proposta aqui é naturalizar essas ideias desde criança. Para que a próxima geração cresça em um ambiente menos tóxico e saiba o seu valor.

Por muitos anos, Chimamanda cuidou de crianças como baby-sitter e ajudou com seus sobrinhos e sobrinhas. Isso lhe deu a oportunidade de observar e refletir sobre o papel que temos na vida de uma criança, desta forma, ela conseguiu elencar pontos importantes para a carta, que agora virou um livro obrigatório para pessoas que se envolvem na criação de alguém.

“Agora eu também sou mãe de uma menininha encantadora e percebo como é fácil dar conselhos para os outros criarem seus filhos, sem enfrentar na pele essa realidade tremendamente complexa”

É essencial que os pais tenham essa conversa e sejam honestos sobre a forma de criar seus filhos, o mundo se descobre cada dia mais plural e precisamos ter uma geração preparada e aberta a essas novas descobertas.

Neste livro, Chimamanda inicia falando sobre ser firme em relação as nossas convicções, reconhecer nosso valor e não aceitar que pessoas nos desrespeitem. Use sempre a ferramenta: a gente pode inverter X e ter os mesmos resultados?

“Por exemplo: muita gente acredita que, diante da infidelidade do marido, a reação feminista de uma mulher deveria ser deixá-lo. Mas acho que ficar também pode ser uma escolha feminista, dependendo do contexto. Se o Chudi dorme com outra mulher e você o perdoa, será que a mesma coisa aconteceria se você dormisse com outro homem?”

Chimamanda também fala da importância de ser uma pessoa completa, não renuncie uma coisa por outra. Se possível tenha as duas. Ser mãe não impede a mulher de trabalhar e vice-versa, não renunciar os sonhos é importante para criar pessoas que se sintam seguras em suas escolhas.

“Nunca se desculpe por trabalhar. Você gosta do que faz, e gostar do que faz é um grande presente que se dá à sua filha”

A autora faz reflexões sobre papéis de gênero e o fato de já empregarmos o que é ideal ou não para uma criança, sem permitir que ela se descubra sozinha. Isso não pode acontecer, não é saudável que uma criança sinta que tem limitações no que quer ser e se tornar.

A importância da leitura é um ponto muito importante também, ler é um dos caminhos para que uma pessoa cresça com uma mente mais aberta para o conhecimento. É claro que o adulto não pode obrigar uma criança a devorar um livro inteiro, mas é preciso arranjar formas de despertar a curiosidade pelos livros. Só o ato de ler constantemente pode ajudar a criar este hábito nela também. A criança precisa saber questionar e ter suas próprias opiniões, quero até enfatizar, é muito importante que a pessoa cresça tendo suas próprias opiniões.

“Os livros vão ajudá-la a entender e questionar o mundo, vão ajudá-la a se expressar, vão ajudá-la em tudo o que ela quiser ser”

E essas sugestões não servem só para pais que criam meninas, mas é preciso naturalizar esses ensinamentos em TODAS as crianças. Aliás, sendo pais ou não, temos que naturalizar o respeito pela existência do próximo em qualquer criança que temos um contato regular. Respeitar as escolhas, aparências, culturas, raças e gêneros é algo fundamental para que tenhamos uma sociedade mais saudável e unida. 

É com muito carinho que indico a leitura deste livro, comece a mudança por você e reflita sobre.

Bruna Domingos
Instagram @brunadominngos

She-Ra e o Sacrifício do Herói


Se você não assistiu o final de She-Ra na Netflix, recomendo que termine a série e depois retorne para esse texto. Ele irá abordar aqui algumas características da protagonista e falar sobre o final da animação com spoilers.

Nós amamos histórias de heróis. Amamos acompanhar a jornada dessas pessoas que abandonam tudo que conhecem pelo bem maior, seja porque querem proteger os que amam ou seja porque querem tornar o mundo melhor. A jornada de um herói nunca deixa de ser uma experiência maravilhosa de se acompanhar.

Também é comum nas histórias de herói, um personagem se sacrificar pelo bem maior. Com sua vida como Tony Stark e Natasha Romanoff no final de sua jornada em Vingadores, Luke Skywalker em Star Wars, Jack em Lost ou com um custo emocional muito grande como Frodo em O Senhor dos Anéis, Clarke em The 100, Sameen Shaw em Person of Interest e Sara em Orphan Black.

Se você acompanhou She-Ra e As Princesas do Poder também acompanhou mais uma história de uma heroína se sacrificando para o bem maior. Como na maioria das histórias, Adora iniciou sua jornada abandonando a Zona do Medo ao descobrir que trabalhava para o lado do mal.

A primeira ação de Adora ao iniciar sua jornada marca a característica que carregou a personagem durante as 5 temporadas da série: ela acredita que por ser a She-Ra precisa resolver tudo sozinha e consertar todos os problemas. E ao decorrer da série ao tomar essa primeira decisão de abandonar a Zona do Medo para consertar as coisas, ela abandona Felina (esse seria o gatilho final para o ciclo de abuso de Felina a tornar vilã).

Essa característica marcante de Adora também é uma característica marcante de vários heróis em várias histórias. Ser um herói significa se doar ao próximo, salvar a todos mesmo que isso signifique sua morte ou mesmo aquele custo emocional na qual o herói nunca conseguirá se recuperar e talvez irá escrever um livro, viver sozinho numa vila, mas com a consciência limpa que salvou a todos.

Na última temporada de She-Ra, Adora está enfrentando as consequências de ter quebrado sua espada e a culpa por não estar conseguindo salvar a todos. Em um dos episódios, ela conversa com a antiga She-Ra, Mara, que tenta mostrar para a heroína que salvar a todos que ama não poderia vir com o custo da própria felicidade, ela mesmo havia se sacrificado para que Adora não precisasse passar pelo mesmo.

Para salvar alguém que se ama é preciso aprender amar a si mesmo. Toda história de herói tem o custo da felicidade própria, um altruísmo maior sobre a felicidade do mundo sobre o custo da felicidade e o emocional do próprio herói. Ao salvar o mundo, ele nunca consegue salvar a si mesmo.

Uma jornada de cinco temporadas foi construída para mostrar a Adora tanto a consequências de suas escolhas baseada em seu altruísmo quanto para seu paralelo Felina. Enquanto, Adora encara uma jornada interna sobre o aprendizado de compartilhar o fardo de salvar o mundo junto com seus amigos, Felina tem sua jornada interna de encontrar perdão e fazer o melhor que pode na situação que se encontra.

Esse paralelo de ambas que carrega todo o coração da série sobre a jornada do herói e seu sacrifício, no final de tudo uma precisava da outra para entender o que tudo isso significava e ter um propósito maior sobre salvar a todos, amor e escolhas.

No final, Adora consegue salvar a todos e encontrar a felicidade com seus amigos e o amor de Felina. Ela aprende através de Felina, de Mara e de seus amigos que ela não pode salvar o mundo sozinha e que amar seus amigos e salvá-los não significa não amar a si mesma e se abandonar.

O sacrifício do herói não precisa ser sobre alguém que aprende amar as pessoas e é altruísta o suficiente para salvar a todos, mas sobre alguém que aprende a amar as pessoas e a si mesmo e com isso salva a todos e a si.


Vanessa de Oliveira
Instagram: @nessagsr

Resenha: Na hora da virada

Título: Na hora da virada
Autora: Angie Thomas
Editora Galera Record
Páginas: 377

Na Hora Da Virada é o segundo lançamento da escritora Angie Thomas, conhecida pelo sucesso de O ódio que você semeia. Nesta obra, a tradução é da Regiane Winarski e a publicação é da Editora Galera Record, a mesma que publicou o primeiro livro. 

Aqui conhecemos a Brianna Jackson, uma aspirante a rapper que vive no Garden Heights com a mãe, Jay, e o irmão, Trey. O pai de Bri, chamado de Li'l Law, foi assassinado quando ela ainda era pequena, e as suas lembranças dele não passam de borrões. Tudo o que ela sabe é o que contam para ela: um cantor de rap bastante respeitado ali no bairro e foi executado por causa de uma briga de gangues. Ele não fazia parte de nenhuma delas, mas pagou o preço por andar com essas pessoas. 

O livro inicia com a nossa protagonista aguardando uma ligação importante do DJ Hype, ele é quem pode dar uma oportunidade para ela participar de uma batalha de rimas no Ringue. Se tudo der certo, o nome de Bri pode se tornar conhecido. 

"Tia Pooh disse que só tenho uma chance de contar a Deus e o mundo quem sou eu"

Além do racismo cometido pelo Estado dentro da periferia onde mora, Bri precisa lidar com o preconceito dos seguranças e funcionários da escola em que estuda. Ter que lidar com os estereótipos é algo muito marcante na narrativa, pois isso atrapalha Brianna a se encontrar e a encontrar sua verdadeira voz. Diferente de Starr no primeiro livro, Angie traz uma personagem mais impulsiva em Na Hora da Virada. Ela é do tipo que não ouve calada, o que não é problema, porque é assim que temos que reagir quando as pessoas demonstram falta de compreensão e respeito conosco. Porém, uma resposta que parece simples na boca de qualquer pessoa branca, se torna uma ofensa quando sai da boca de Bri, e constantemente ela precisa lidar com os falsos julgamentos que fazem contra ela. 

Existem várias problemáticas que o livro permite abrir discussões, podemos começar pelo fato de como o Estado marginaliza uma comunidade para alimentar o sistema carcerário e eliminar pessoas negras. A gente percebe que o clima de tensão entre o Garden e a polícia não mudou desde a morte de Khalil (é importante deixar claro que essa obra não é uma continuação de O ódio que você semeia, muito pelo contrário, nenhum personagem se conhece aqui. Mas as histórias acontecem no mesmo bairro, então, vez ou outra você encontrará uma referência relacionada a morte de Khalil e o assédio policial). 

O tráfico de drogas é abordado no livro partindo do olhar de quem vive dentro da periferia. O problema da educação na escola do bairro continua, e se não tem educação, obviamente que o mundo do crime acolherá pessoas que estão na margem. É um ciclo vicioso que a gente sabe que governo nenhum vai acabar com isso de fato. É necessária muita luta do povo negro e aliados. 

Ainda falando sobre drogas, temos a história sensível de Jay, mãe da Bri. Depois de ter o marido assassinado, ela entra para o mundo das drogas e se afunda completamente. Quando o livro inicia, Jay já está limpa há 8 anos, mas durante a narrativa, Bri vai recordando esses acontecimentos. O que nos leva a um ponto importante: o preconceito contra pessoas que já foram usuárias de drogas ilícitas. Vocês entendem quando eu digo que o Estado e a sociedade alimentam o sistema carcerário? Quando a sociedade fecha as portas para pessoas como a mãe da Bri, a saída de muitas delas é voltar para as drogas ou entrar no mundo do crime. Não é o que acontece com Jay, porque ela encontra força em seus filhos, mas a tia Pooh, irmã de Jay, passa por situações que a levam a fazer parte de uma gangue e isso traz muitos problemas. 

Neste livro, muito além de falar sobre a violência policial, Angie aborda a desigualdade de classe, relacionamento familiar conturbado, aborda relacionamento homoafetivo e fala sobre como é a indústria do rap. Que por mais que seja um gênero da cultura negra e periférica, são homens brancos que determinam o que será sucesso e o que não será. Sem contar a constante tentativa dessa mesma indústria de calar vozes que tem MUITO a nos dizer. 

Bri passa por um processo de descoberta, o rap será a sua forma de denunciar o racismo e de tirar sua família da dificuldade financeira. Isso pode lhe custar algumas coisas, depois de estourar na internet, Bri vai precisar lidar com a má interpretação das pessoas em relação as suas respostas cirúrgicas àquilo que tira sua paz e tira a possibilidade de pessoas negras saírem da margem. 

"Mas nunca vão me silenciar. Tenho coisas demais pra falar"

Com uma linguagem jovem e cativante, Na Hora da Virada é importantíssimo para mostrar como funciona o racismo e suas estruturas. Não tem como não se sentir tocado com as palavras de Bri, com seus versos impactantes e com seu olhar sobre o mundo. A gente acompanha a caminhada de uma jovem que está descobrindo o peso de fazer parte da minoria marginalizada até a descoberta do seu  poder de voz. Ela incomoda, traz desconforto para aqueles que não aceitaram seu lugar de privilégio em uma sociedade racista.

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

3 Filmes para Conhecer Christopher Nolan

Christopher Nolan é um diretor de cinema, roteirista e produtor. Ele é mais conhecido com seu filme Interestelar e Batman: Cavaleiro das Trevas.

Com dez filmes na carreira, Nolan é um dos principais nomes de Hollywood atualmente com produções de super-heróis, policiais ou thrillers enigmáticos, sempre partindo da perspectiva que pode trabalhar com a imaginação do seu público e ainda apresentar uma excelente história.

1. Amnésia

Baseado no conto Memento Mori de Jonathan Nolan, irmão do diretor, Amnésia conta a história de um homem que marca com tatuagens o corpo os eventos que acontecem em sua vida. Leonard está caçando o homem que matou sua esposa e precisa fazer isso com ajuda de algumas pessoas e de suas tatuagens já que ele sofre de uma forma intratável de perda de memória que o faz perder a memória de eventos que aconteceram quinze minutos atrás.



2. O Grande Truque

Com Christian Bale e Hugh Jackman, O Grande Truque conta a história de dois ilusionistas no século 19, em Londres, Alfred Borden e Rupert Angier.
Amigos que iniciam uma rivalidade que começa ir longe demais e se transforma numa batalha que vira obsessão. 

E os resultados podem ser trágicos.



3. A Origem
Dom Cobb é um ladrão com a rara habilidade de roubar segredos do inconsciente, obtidos durante o estado de sono. Impedido de retornar para sua família, ele recebe a oportunidade de se redimir ao realizar uma tarefa aparentemente impossível: plantar uma ideia na mente do herdeiro de um império. Para realizar o crime perfeito, ele conta com a ajuda do parceiro Arthur, o discreto Eames e a arquiteta de sonhos Ariadne. Juntos, eles correm para que o inimigo não antecipe seus passos.


Você já assistiu algum filme do Nolan? Gostou? E esses da recomendações? Me conte nos comentários.




Vanessa de Oliveira
Instagram: @nessagsr

Resenha: O feminismo é para todo mundo

Título: O feminismo é para todo mundo - políticas arrebatadoras
Autora: bell hooks
Editora Rosa dos Tempos
Páginas: 175

"O feminismo é para todo mundo" foi mais um dos livros que li para a maratona literária #PRETATONA. Seguindo a ideia do título, bell hooks tenta nos dar uma narrativa mais acessível sobre o que é feminismo e a importância de levarmos suas políticas a sério. A obra foi originalmente publicada em 2000 e depois relançada em 2018, aqui no Brasil o livro é traduzido pela Ana Luiza Libânio e lançado pela Editora Rosa dos Tempos. 

A autora fala sobre cada ponto em que o feminismo toca em nossas vidas. A proposta é clara: todos precisam entender o verdadeiro feminismo para que se juntem ao movimento. Mas como fazer a mensagem chegar em todos? Ela inicia o livro dizendo que uma revolução feminista não se faz sozinha e pontua a necessidade de acabar com o racismo, elitismo e o imperialismo. Dessa forma, homens e mulheres poderão criar um espaço unido.

Nos primeiros parágrafos, bell fala sobre a confusão das pessoas ao definirem o feminismo. Tudo o que diziam era uma reprodução do discurso da mídia patriarcal, principalmente a falsa mensagem de que o feminismo é um movimento anti-homem. O apagamento de mulheres não brancas dentro do movimento também é bastante colocado durante a narrativa. Mesmo mulheres negras atuando como revolucionárias e aliadas da luta, elas não eram vistas como líderes.

"Estava claro para as mulheres negras que jamais alcançariam a igualdade dentro do patriarcado capitalista de supremacia branca existente"

O livro foi se desenrolando de forma fácil durante a minha leitura, hooks cita suas vivências para exemplificar grande parte da teoria feminista que ela expõe na obra. Isso para mim é fantástico, pois deixa evidente que ela sabe do que está falando, pois vivenciou grande parte dessas experiências.

Ainda no primeiro capítulo, bell hooks faz uma diferenciação entre pensamento revolucionário e o pensamento reformista. O pensamento revolucionário se tornou popular no meio acadêmico e por causa da linguagem difícil não saiu da bolha dos letrados. Uma pena na época, pois esses trabalhos ofereciam uma visão libertadora da transformação feminista e não recebia tanta atenção da imprensa, pois a mesma focou suas energias em falar apenas de igualdade de gênero no mercado de trabalho, esquecendo de dialogar sobre a desigualdade de classe.

Por outro lado, o feminismo na academia permitiu que pensadoras e escritoras ganhassem nota, como por exemplo, Toni Morrison, que não era muito lida na época, mas bell pôde usá-la como referência em seus trabalhos. O problema mesmo, como já disse ali em cima, foi quando a linguagem da teoria começou a ficar restrita ao grupo acadêmico. As ideias eram visionárias, porém, não alcançavam as pessoas  do lado de fora, o que, de certa forma, enfraquecia o movimento.

"Ensinar pensamento e teoria feminista para todo mundo significa que precisamos alcançar além da palavra acadêmica e até mesmo da palavra escrita"

bell hooks também reforça que o feminismo precisa ser presente em nosso dia a dia, para que essas práticas sejam naturalizadas. É preciso ter mais estudos feministas nas coisas que lemos, ouvimos e assistimos. Principalmente na educação infantil, escola e faculdade. Mas não pense que a autora ficou só nisso, ela escreveu com profundidade ao falar que uma pessoa feminista precisa entender o direito reprodutivo da mulher. Mais do que pedir a legalização do aborto, bell explica o porque precisamos dar condições para mulheres escolherem se querem ou não ter filhos.

"Se educação sexual, medicina preventiva e fácil acesso a métodos contraceptivos forem oferecidos para todas as mulheres, menos de nós teremos gravidez indesejada", ou seja, se a educação sexual de mulheres, ricas ou pobres, fossem uma das prioridades de nossos governantes, menos mulheres ficariam grávidas e menos abortos aconteceriam. É simples. Direito reprodutivo é uma questão de saúde pública, é necessário criar mais políticas que visam proteger a mulher de riscos.

No capitulo "Beleza por dentro e por fora", bell inicia lembrando de que as mulheres, jovens ou mais velhas, são socializadas para acreditarem que o nosso valor está na aparência, e esse é mais um pensamento sexista.

"A revolução do vestuário e do corpo criada pelas intervenções feministas fez com que mulheres aprendessem  que nossa carne merecia amor e adoração em seu estado natural"

A revolução na industria da moda, saúde e beleza se deu a partir da luta feminista. No movimento existem mulheres de todos os estilos e gosto, o capitalismo precisou se adequar a isso. Grandes marcas precisam se adequar a essas mudanças ou podem perder para as mulheres que criam seus próprios produtos. É nesta parte que entendemos que as mulheres feministas precisam ocupar todos os espaços, para que sempre tenhamos alternativas. Assim, o movimento se fortifica e mulheres podem continuar consumindo produtos sem praticar o auto-ódio.

"Criticar imagens sexistas sem oferecer alternativas é uma intervenção incompleta"

Há assuntos neste livro que ainda não foram explorados de forma correta dentro da mídia de massa e que seria bastante interessante que mais pessoas falassem sobre. Como por exemplo, os relacionamentos abusivos entre pais e filhos. Quando bell fala que mulheres também podem ser sexistas e abusivas, é algo certeiro, pois a mídia sempre menciona a desigualdade de gênero e/ou coloca a mulher como sexo frágil, sendo que há muitas mulheres que praticam atos de violência e são sexistas com outras mulheres. Abrir essa discussão nas rodas de conversa abre caminhos para criarmos uma comunidade mais amorosa e mais ciente de seus direitos e deveres.

O progresso no movimento feminista permitiu que as pessoas se atentassem ao fato de que violência doméstica também acontecia em relacionamentos homo afetivos e contra crianças. Focar apenas na violência contra mulher não ajuda o movimento a progredir porque é preciso acabar com TODAS as estruturas de violência. Mulheres também podem ser violentas e perpetuar esses comportamentos através de seus filhos. A partir do momento em que aceitamos o nosso papel dentro desses problemas, conseguimos acabar com eles.

"A violência patriarcal em casa é baseada na crença de que só é aceitável que um indivíduo mais poderoso controle outros por meio de várias formas de força coercitiva"

Aqui nesta resenha eu digitei e digitei, mas ainda não falei nem metade da mensagem de bell hooks em "O feminismo é para todo mundo". Recomendo que vocês leiam também para espalhar a mensagem de forma ainda mais acessível. A autora recomenda que façamos como as pessoas que saem batendo nas portas para falar de religião, que possamos dar essa mesma importância ao movimento para que a convivência entre nós melhore.

Ainda que a intenção da autora seja trazer uma linguagem fácil para o seu livro, acredito que ele ainda não é o ideal para alcançar as pessoas de todas as classes. O trabalho ainda é longo. Façam resenhas nos blogs, espalhem folhetos, discuta em seu canal no YouTube e reflita suas atitudes no dia a dia. Deixe que as pessoas perguntem sobre essas perspectivas.

E isso não é só para as mulheres cis, é para homens cis e LGBTQI+ também, apesar da bell hooks não falar de pessoas trans no livro (é algo para se discutir), a proposta serve para todos. Desde o início, o movimento feminista deveria ter trabalhado com alternativas que incluísse o papel do homem na luta contra o sexismo, porém a mídia focou no pequeno grupo anti-homem e só enfraqueceu os ideais revolucionários que beneficiaria todo mundo. Precisamos reverter essa situação!

Assim como ficou claro para mim, eu espero que também fique para vocês: O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO.

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

Resenha: Escola - Os Piores Anos da Minha Vida

Título: Escola - Os Piores Anos da Minha Vida
Autores: James Patterson e Chris Tevvetts
Editora Novo Conceito
Páginas: 288

O livro conta a história de Rafael Khatchadorian, o Rafa, que está para começar o sexto ano na Escola Municipal de Hills Village, ou para os mais próximos, "Prisão de Segurança Máxima", como Rafa costuma apelidar carinhosamente. O personagem é muito criativo e vive com sua irmã Georgia, a caçula (enxerida, birrenta, bem mesmo o jeito do esteriótipo de irmã caçula), sua mãe e Urso. Urso é um padrasto muito folgado que consegue ser mais insuportável do que muitos personagens que já li. E por último temos Léo Caladão, o melhor amigo de Rafa, que está envolto num mistério muito interessante.

O sexto ano de Rafa é bem maluco. Por achar que regras são chatas e por ter medo do novo ano, ele cria uma espécie de jogo para se divertir: pegando todas as regras da escola, ele decide quebrá-las fazendo pontos com isso, tendo pontuação extra e apenas três vidas que poderia perder caso algo saísse errado. Mas no meio dessa loucura, Rafa acaba descobrindo coisas e efetuando coisas novas como: enfrentar a professora dragão, se apaixonar pela garota popular e enfrentar Miller, o valentão da escola. 

Com muita diversão e imaginação ele cria a famosa Operação R.A.F.A.

R: Regras 
A: Atrapalham a
F: Felicidade
A: Alheia

Página 65

As ilustrações do livro vão intercalando com a história e a imaginação do protagonista Rafa, inclusive parece que realmente uma criança desenhou. James Patterson mostrou um lado que eu não conhecia, com muito humor ele tratou de temas como bullying, amizade, esperança e amor. Há um toque de amor na relação de Léo, Rafa e sua mãe, principalmente pelo segredo que eles compartilham entre si.

E como o próprio Rafa afirma: as pessoas vivem dizendo quanto é ótimo crescer e esquecem da beleza natural de viver cada momento com muito humor e alegria. Um livro super recomendado!


Vanessa de Oliveira
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Resenha: Morte matada

Título: Morte matada
Autora: G. G. Diniz
Editora Corvus
Páginas: 38

Morte Matada foi o meu primeiro contato com o sertãopunk, gênero que a autora G. G. Diniz co-criou e trouxe nesta obra. O livro faz parte do Projeto Carcarás, da Editora Corvus, que tem como objetivo publicar noveletas que trazem a verdadeira essência do nordeste, sem estereótipos preconceituosos e escrito pelos próprios nordestinos, claro. 

Cedrinho é uma pequena cidade que está sob o comando do Coronel Gomes, um homem ambicioso e nada bom. Antes da sua chegada, a cidade era tranquila e um refúgio para pessoas que corriam das coleiras impostas nas grandes cidades. Porém, após perceber que as terras eram prosperas, Gomes deu um jeito de tomar o lugar e controlar a população dali sob ameaça e coleiras. Essas coleiras ajudavam os capangas a controlar a população e a eliminar quem se revoltasse contra o sistema.

"O pior de tudo é que, mesmo sem coleira, a gente não faz nada, porque acha que não pode fazer, acha que não pode escapar"⁣

Mas, no meio deles havia uma pessoa que não possuía essa coleira: Heloísa, a única médica na cidade. E mesmo sem formação, ela conseguiu salvar a vida de Luís Felipe, filho do Coronel, por isso teve a liberdade garantida. Não que fizesse uma grande diferença para ela, visto que não havia nenhum tipo de regozijo morar em Cedrinho, pelo menos não mais.

Em uma certa noite, Heloísa estava fumando seu cigarro como de costume, quando de repente percebe uma movimentação estranha vindo de fora. Eram duas moças, uma delas estava bem ferida enquanto a namorada a carregava. A chegada delas muda a rotina de Heloísa, visto que o jagunço de Luís Felipe, o Caveira, não podia nem sonhar com a presença dessas mulheres em Cedrinho.

"Mas quando é pra ajudar pobre, a lei não serve de nada, né?"

Morte matada é uma história rápida, mas cheia de significados. Na minha concepção, o que mais se destacou foram os temas como liberdade e classe. É interessante como em qualquer história, seja ela real ou ficção, as pessoas poderosas estão acima de qualquer regime e não estão nem aí se o mundo está desabando, desde que a vida delas esteja ótima. Como dito na citação acima, a justiça não funciona para os pobres.

O cenário distópico da história é bastante certeiro, pois não foge da realidade brasileira. Esperamos ler descrições tecnológicas extremamente avançadas e um cenário metálico em livros dessa temática, mas G.G. Diniz foi na simplicidade e conseguiu finalizar a noveleta com chave de ouro (e com gostinho de quero mais).

Essa foi a minha segunda leitura para a maratona #PRETATONA e estou muito satisfeita por ter seguido a sugestão do Clã das Pretas em colocar essa leitura na minha lista. Leiam a literatura nordestina!

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

He Even Has Your Eyes: Uma comédia sobre perspectiva e preconceito


Título Original: Il a déjá tes yeux (He Even Has Your Eyes)
Título no Brasil: Ele Tem Mesmo Seus Olhos
Diretor: Lucien Jean-Baptiste
Roteiro: Marie-Françoise Colombani, Lucien Jean-Baptiste e Sébastien Mounier

Sinopse: "Paul e Sali são um casal de negros casados que moram e trabalham em Paris. Recentemente, inauguraram uma loja, compraram uma grande casa a qual estão reformando, e aguardam ansiosos pela chegada de seu filho. Apesar de não poderem ter filhos biológicos, há muito eles têm lutado para adotar um filho. Quando Sali finalmente recebe a ligação que seu arquivo de adoção é aprovado, a felicidade é tanta que não cabe dentro deles!
Mal sabem eles, entretanto, que desafios inesperados os aguardam. O querido e esperado Benjamim é branco como leite, e Paul e Sali precisarão lutar para que seu filho de 4 meses seja aceito pelos seus novos avós e pela sociedade".

Como de costume, essa comédia francesa não é uma daquelas que te matam de rir, mas mantém você entretido e humorado durante todo o filme. Nessa história acompanhamos o casal de negros Paul (Lucien Jean-Baptiste) e Sali (Aïssa Maïga) que não podem ter filhos e estão há muito tempo no processo de adoção esperando por uma oportunidade. E tudo muda quando eles recebem a notícia de que, finalmente, seu momento chegou e eles podem ser pais do pequeno Benjamin.

Benjamin é um bebê branco. Para Paul e Sali, não existe problema nisso e eles estão transbordando amor por finalmente conseguir seu filho, mas o que não parece um problema para eles é um problema para outras pessoas, como a assistente social que cuida do caso deles e até mesmo os avós.

No dia a dia é muito comum ter crianças negras adotadas por casais brancos e quando pensamos no contrário pode surgir uma dúvida. Essa dúvida está representada na assistente social, que esconde todo seu racismo com a situação dizendo que está preocupada com o bem estar da criança. Há outros pontos do filme que abordam situações de racismo de diferentes perspectivas.

Sali é confundida o tempo todo como a babá de Benjamin, mesmo quando reafirma várias vezes que aquele é seu filho. Isso acontece em várias situações: quando ela sai com amigas e alguém começa perguntar informações do bebê diretamente para a amiga ao invés dela, no hospital quando pedem os verdadeiros pais e ao passear no parque ao encontrar outras babás.

Outro assunto abordado na trama é a imigração e suas implicações na França, como o preconceito também é utilizado para separar as pessoas no país. E embora a imigração e o racismo seja um assunto que eles abordem na perspectiva dos franceses é realmente algo que pode ser considerado em todo mundo.

Sem se aprofundar muito no drama nem fazer da comédia algo realmente muito humorado, He Even Has Your Eyes faz um balanço de uma comédia leve com uma crítica bem feita. Casais negros com filhos de pele clara ou mesmo branco não são incomuns e a construção da sociedade em sempre associar adoção de negros por branco carrega uma trama cheia de críticas de forma humorada e desconstruindo estereótipos.

O único ponto negativo do filme é o final que se desdobra de forma rápida e um pouco forçada dentro da trama, mas faz bom uso do tom de humor que utilizou até ali.

O filme está disponível na netflix.


Vanessa de Oliveira
Instagram: @nessagsr

Literatura Africana: Paulina Chiziane



Na temporada 17/18 – achei que nunca descreveria uma época assim se o assunto não fosse futebol – eu tive a mais incrível experiência da minha vida em um intercâmbio de quase um ano em Moçambique, talvez a colônia portuguesa que menos perdeu sua essência original. Afinal, em terras africanas, não há raíz que não batalhe para ser devidamente conservada.
Lá eu presenciei momentos mágicos e sobrevivi a aventuras insanas. O começo foi incrivelmente complicado. Mas, natural, leva um pouco de tempo para pegar o andamento das coisas, mais precisamente de Maputo, capital, onde eu vivi todo esse tempo. E foi na segunda metade de minha estadia que decidi pesquisar a vida e a história do país, de sua capital e de seus personagens expoentes. E é a partir daqui que começa a história que quero contar.

O Clã das Pretas criou um desafio de leituras chamado ‘Pretatona’, que como o nome já diz, estipula um itinerário de livros com protagonismo preto. Este protagonismo, definitivamente, é um lugar de fala em que eu não entro.  Mas, presto todo meu apoio e respeito a uma causa que envolve literatura juntamente da figura preta e feminina. Âmbitos esses que tem minha profunda admiração. E existe alguém que precisa ser lida, e que tem uma obra que deve ser contemplada. É uma mulher, preta, moçambicana, viva e muito presente. Se me permitem...

Interessei-me pela história de Paulina Chiziane quando fui convidado a participar de um espetáculo litero-musical em Moçambique, com o ator brasileiro Expedito Araújo e com a atriz moçambicana Melanie de Vales – atriz de um excelente filme chamado ‘Comboio de Sal e Açúcar’, outra recomendação que solto por aqui – onde contemplávamos a obra de escritores nativos de países lusófonos. Recitei um trecho de um livro chamado ‘Balada de Amor ao Vento’, que era de uma beleza estonteante e que me aguçou o desejo de saber e ler mais. Foi uma enxurrada de informação que me fez ter certeza que a figura de Paulina está além de mais uma poetisa africana. E explico.

A escritora, que hoje tem 65 anos, é uma das maiores e melhores manipuladoras da língua portuguesa, talento recebido por um completo acaso. Quando nasceu em Maputo, na época chamada Lourenço Marques, falava os dialetos usados na época: Chope, Ronga e o mais popular deles, Changana. Aprendeu a herança dos portugueses em uma escola religiosa – atividade obrigatória no período colonial – e a curiosidade a levou ao curso de linguística da Universidade Eduardo Mondlane, faculdade mais popular do país. E é dado o início a uma juventude de lutas! Paulina foi uma das primeiras e poucas mulheres a se associarem a uma frente política e teve coragem para se desvincular da mesma quando achou que devia, mesmo contra pressão dos companheiros de partido.

Niketche - uma historia de poligamia (Portuguese Edition ...Na política ou fora dela, sua luta sempre foi a favor da liberdade feminina e de que a poligamia deveria ser normalizada não só para homens (que quando não a fazia legalmente, fazia ilegalmente). Dessa batalha surgiu o seu maior filho: Niketche – Uma História de Poligamia. Ganhei este livro no natal que passei por lá, de um amigo também brasileiro. E foi, sem duvida, a leitura mais significativa que me passou os olhos. E digo isso literalmente, pois são ‘signos’ ou ‘símbolos’ as maiores referências nessa escrita densa de Paulina. Simbologia que já começam pelo título: Niketche é uma dança popular do norte do país, que ela mesma descreveu como ‘a dança do sol e da lua’. A narrativa nos entrega uma relação, claro, poligâmica em que todas as mulheres moçambicanas envolvidas representam alguma peculiaridade geográfica do país, enquanto o único personagem masculino é a representação da sociedade, como um todo. Já conseguimos sentir por esses pontos as tonicidades que o livro traz, não? Essa obra é um manifesto de sororidade, e um aviso de que a justiça e a liberdade feminina precisam existir concomitantemente, e para ontem!


GRIFO NOSSO: “Eu, mulher: por uma nova visão do mundo”, de Paulina ...Paulina, como mulher africana, já viveria naturalmente as margens. Até porque, quando se fala em literatura moçambicana, para muitos o primeiro nome que a memória busca é o de Mia Couto, homem branco. Claro, não menos talentoso por isso. Mas mesmo com o monopólio de Mia nas premiações literárias, em 2003 ele foi obrigado a dividir seu troféu com Paulina. Isso a tornou a primeira mulher premiada internacionalmente do país. O próprio Mia Couto a respeita como uma verdadeira heroína - que realmente é. Apesar de fora da política, Paulina foi frente de diversas discussões a favor da pauta feminina. Todo o continente africano é demasiadamente machista e por vezes ofensivo, literalmente, com as mulheres. Mas se hoje elas ainda podem comemorar uma caminhada digna e cultivar a esperança de viverem dias melhores, devem tudo isso a trajetória de Paulina Chiziane.

Paulina se aposentou em 2016 dos livros, contos e poemas. Alegou estar cansada de ser brava em toda batalha que lhe era dada. Extremamente compreensível. Carregar o peso da liberdade da mulher africana nas costas não deve ser fácil. A parte poética disso tudo é saber que ela venceu guerras, por ela e por todas suas irmãs, usando como arma não as famosas AK-47 estampadas na bandeira moçambicana, mas sim seu papel, sua caneta, e seu português (quase) religioso.

Renan Augusto Dias
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