10/06/2020

 

Anne With an E: um olhar encantador sobre o mundo

Quem assiste Anne With an E sabe que essa é, sem dúvidas, uma das melhores séries já colocada na Netflix. Baseada na obra de Lucy Maud Montgomery (Anne of Green Gables), a série foi criada por Moira Walley-Beckett, produtora e escritora de televisão canadense. Esta obra explora diversos assuntos ainda considerados tabu para o final do século XIX, quando ainda existiam costumes que impediam as pequenas cidades de evoluírem socialmente.

Anne Shirley (Amybeth McNulty) é uma orfã de 13 anos muito sonhadora, apaixonada por literatura e pela natureza, ela vive se imaginando como uma princesa ou como uma heroína para esquecer o complexo que sente em relação ao seu cabelo ruivo e corpo magricela, além do fato de assim, conseguir lidar melhor com a vida sofrida que vive dentro de um orfanato. Os seus devaneios a distraem com muita facilidade e seu amor pelo imaginário a deixa muito dramática em suas relações e desejos.

Em Green Gables, dois irmãos de meia idade, Marilla (Geraldine James) e Matthew Cuthbert (R.H. Thomson), resolvem adotar um menino para ajudá-los nos trabalhos pesados da fazenda. O que eles não esperavam é que, por engano, o orfanato enviasse uma menina de 13 anos ao invés de um rapaz. Anne está super empolgada por finalmente ter uma família, seu braço está roxo de tanto se beliscar, lembrando a si mesma que aquilo não é um sonho. Na estação de trem ela aguarda a chegada de Matthew, sua imaginação já a fez pensar em muitas coisas sobre Green Gables, um sonho se tornaria realidade.

Matthew chega na estação e não encontra ninguém que esperava, passa por Anne sem nem olhar para ela e vai conversar com o guarda, perguntando se ele não viu uma senhorita deixar o menino por ali. Mas não, o guarda responde dizendo que só ficou a garota que está sentada no banco. Então, Matt se dá conta do engano, o que poderia fazer? Deixar Anne abandonada na estação? Teria que levá-la até Marilla e juntos decidiriam os próximos passos.

Anne é uma garota sonhadora e tem uma imaginação aguçada, por isso conversa sem parar. Ela exalta cada detalhe da natureza durante o caminho, coloca nomes que soam românticos em lagos e árvores. Matthew que não é muito bom de conversa, se encanta com Anne. Ele a considera uma garota muito interessante e admira a forma da pequena órfã ver o mundo. Do caminho da estação de trem até Green Gables Anne fala sem parar, admira os locais por onde passam e diz o quão maravilhoso é estar ali com Matthew. Sua ansiedade para conhecer a nova casa aumenta a cada metro em que se aproximam da fazenda. 

E eles chegam, porém, Anne ganha um banho água fria ao se encontrar com Marilla. Ela fica muito assustada com a presença de Anne, definitivamente uma menina não era o que ela queria. Anne entra em desespero por saber que será enviada de volta ao orfanato, insiste dizendo que pode fazer qualquer trabalho para ajudá-los e que não precisa ser necessariamente um menino. Depois de muito chorar e de muitas tentativas para provar sua capacidade, Marilla decide aceitar Anne Shirley. A partir desse momento uma série de aventuras (e problemas) vão acompanhar a pequena Anne com E.

A gente também acompanha o desenvolvimento do sentimento maternal em Marilla, ela sempre teve uma vida dedicada a família, nunca se casou e nunca teve filhos. Ela dá a Anne um tratamento mais rígido, se comparar com Matthew,  mas Marilla não consegue mais enxergar sua vida sem a pequena na casa. Mesmo não a chamando de mãe, Anne ganha uma mulher que cuida e a ama como nunca foi amada em toda a sua vida.

Nossa protagonista é assombrada pelo seu passado, ficou orfã quando tinha apenas três meses de vida e sempre voltava a morar no orfanato. Anne nunca foi cuidada como filha pelas pessoas que a colocavam dentro de casa, quando conseguia ser adotada, ela era tratada como serviçal e sofria diversos tipos de abuso. De onde vem tanta imaginação e esperança? Eis o mistério, a garota nunca teve motivos reais para ter fé em um futuro feliz, mas qualquer sombra de melhora, Anne encontrava motivos para crer que tudo ficaria bem. Essa é uma das características que mais me encanta na personagem. 

Consequentemente, Anne é muito impulsiva, o medo de nunca ter uma nova oportunidade para viver algo a fazia tomar decisões ruins. Mas em outros momentos, sua impulsividade salvava pessoas, como por exemplo, quando a casa de sua colega Ruby Gillis (Kyla Matthews) pega fogo. Ao chegar no local, onde todos da cidade corriam para ajudar a apagar as chamas, Anne teve a perspicácia de observar que as janelas e portas estavam abertas, o que fazia com que o fogo se espalhasse com mais velocidade. Sem pensar duas vezes Anne entra na casa, desvia das chamas e começa a fechar tudo que encontra. O fogo perde a força.

A série tem três temporadas, nelas nós acompanhamos o envolvimento de Anne com as pessoas da pequena cidade de Avonlea. Ela supera os preconceitos de Rachel Lynde (Corrine Koslo), conhece Diana Barry (Dalila Bela), sua grande melhor amiga, começa a frequentar a escola e se apaixona por Gilbert Blythe (Lucas Jade Zumann), mesmo demorando para entender seus sentimentos. Conviver com as pessoas de Avonlea fez com que Anne enfrentasse seus complexos e superasse alguns medos. A sua inteligência e agilidade para criar histórias abriram espaços para que ela e seus amigos fossem ouvidos pela população. Na escola, ela precisa aprender a seguir regras e a lidar com comentários maldosos sobre sua aparência. Ela também aprende a superar seus próprios preconceitos ao conhecer crianças que tem diversos tipos de educação e família.

Dentre os temas mais marcantes narrados na série estão: literatura, política, racismo, liberdade de expressão, feminismo, coragem, educação, fé e amor. Cada personagem tem seu momento importante aqui, suas bagagens são muito bem discutidas e isso nos faz criar um apego gigantesco por cada episódio. A entrega dos atores em seus personagens é muito nítida, eu não consigo imaginar outra  pessoa atuando como Anne ou como Marilla, por exemplo.

Anne With an E cativa, a beleza do mundo começa a fazer sentido diante dos nossos olhos, mesmo a história se passando no século XIX. É importante entender que viver em comunidade e aceitar as diferenças é uma evolução pessoal. Mas mais do que isso, a série faz entender que todo dia é dia de aprender, todo dia é dia de aproveitar uma nova oportunidade e que não aceitar novas maneiras de pensar é regredir.

Melhores momentos para alguns leitores do blog:

1 - O que há de bom no mundo | 2ª temporada, episódio 10
Neste episódio, Srta. Stacy (Joanna Douglas) está prestes a perder o emprego como professora por simplesmente inovar em suas aulas. Ao contrário do Sr. Phillips (Stephen Tracey), Stacy ensina a prática, além da teoria. Porém, o conselho conservador começou a não gostar muito disso, juntaram algumas fofocas para reunir a comunidade e decidir o destino da professora. Enfim, os alunos criam uma série de protestos na cidade, e na noite da reunião decisiva eles entram segurando lamparinas ligadas por energia, algo nunca visto antes em Avonlea/Green Gables. Após um discurso emocionante, os alunos conseguem fazer com que a professora fique.


2 - Esforço pelo bem | 3ª temporada, episódio 7
Após uma de suas amigas sofrer calúnia na cidade, Anne escreve um artigo falando sobre assédio e a liberdade de escolha da mulher sem julgamentos. Este texto não é muito bem recebido pela comunidade e Anne sofre algumas retalhações. O conselho rouba a máquina de prensa do jornal da escola e a grande discussão do episódio é sobre a liberdade de expressão. Até quando as mulheres não terão o direito de falar e de viver como quer?


3 - Sou destemida e empoderada | 3ª temporada, episódio 5
Este é um momento doce e envolvente entre Anne e suas amigas, juntas elas montam uma fogueira e iniciam um ritual fazendo um juramento a deusa sagrada. Neste juramento, elas declaram que seus corpos pertencem somente a elas e que apenas elas escolheriam quem amar. Prometendo enaltecer seus intelectos e não deixar nenhum homem desmerecer suas capacidades.


4 - Um tesouro vindo da alma | 1ª temporada, episódio 4
Já mencionado no post, este é um dos momentos mais marcantes na série, é quando Anne salva a família de Ruby Gillis de uma tragédia maior. Neste episódio, a casa dos Gillis pega fogo e todos os moradores vizinhos começam correr para apagar. Ao chegar no local, Anne percebe que as janelas e portas da casa estão abertas e numa atitude impulsiva ela corre para fechar. Após desviar das chamas e conseguir cumprir essa missão, todos percebem que o fogo realmente diminuiu.


5 - O remorso é um veneno da vida | 1ª temporada, episódio 6
Depois de um chá da tarde desastroso com Diana, Anne é proibida de brincar com a sua melhor amiga, a Sra. Barry (Helen Johns) a considera uma péssima influência para a sua filha. Porém, uma quase tragédia faz essa situação mudar. A irmã mais nova de Diana tem uma crise de crupe enquanto seus pais estão em viagem, Diana corre para a casa de Anne em busca de ajuda. Por causa das suas experiências cuidando de crianças, Anne sabe exatamente o que fazer e consegue salvar a vida de Minnie May (Ryan Kiera Armstrong). O Sr. e a Sra. Barry mudam a visão que tem sobre Anne e pedem desculpas pelo pré-julgamento.

Se você já assistiu, diga nos comentários qual é o seu momento favorito na série, mas se ainda não viu, corra e assista. Anne With an E é um descanso neste momento tão turbulento que estamos vivendo.

Bruna Domingos 
Instagram: @brunadominngos

9 comentários:

  1. Oi, Bruna tudo bem? Eu ainda não assisti este seriado. Li o livro e gosto de a estória e todo o seu conteúdo. Anne é incrível. Estes episódios escolhidos parecem ser maravilhosos. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Olá, Bruna.
    Tem tantas séries ruins sendo renovadas por várias temporadas e uma tão boa quanto essa cancelam com tanta história ainda pra contar. Ainda bem que tem os livros para quem virou fã como eu.

    Prefácio

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  3. Oii Bruna
    Eu já conheci a série e vejo inúmeras resenhas positivas sobre ela, incluindo a sua, e a vontade de assistir só aumenta. Vou tentar tirar um tempo nesse final de semana e começar a série.

    Beijos!
    http://focadasnoslivros.blogspot.com/

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  4. Eu amei de mais acompanhar essa série. A Anne é encantadora e nos ensina tantas coisas.

    www.vivendosentimentos.com.br

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  5. Oi, Bruna!
    Já vi alguns episódios da primeira temporada, mas acabei largando a série. Tenho muita vontade de voltar a vê-la, e de ler os livros também! :D

    Estante Bibliográfica

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  6. Oi Bruna,
    O tanto que eu amo essa série é difícil de explicar, ela é tão maravilhosa em diversos sentidos. Dois episódios que você citou o meu favorito é o Esforço pelo Bem, me arrepio só de lembrar dele. Fiquei bastante triste quando soube que a série foi cancelada e procurei pelos livros pra saber como a história continuava, acabei me apaixonando ainda mais pela Anne.

    Bjsss
    https://pensamentossoavento.blogspot.com/

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  7. Toda vez que eu vejo alguém falando dessa série eu penso: eu PRECISO assistir! E com essa resenha acho que realmente vou amar e, provavelmente me emocionar muito. Vou acrescentar na lista de urgentes. Enfim, amei as palavras e saber um pouco mais da história! ♥

    Beijos, Carol
    www.pequenajornalista.com

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  8. Olá Bruna,


    Eu assisti a primeira temporada dessa série e preciso assisti as demais urgente, gostei demais, eu também quero ler os livros, que devem ser anda melhores.

    Bjs.



    https://devoradordeletras.blogspot.com/

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  9. Eu não assisti essa série ainda, mas tenho vontade. Pena que são tantas séries que quero ver, que acaba não dando tempo... kkk
    Mas é uma série muito boa, especialmente pelos ensinamentos que traz. Bjks!

    Mundinho da Hanna
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