13/05/2020

 

Resenha: Vozes negras

Título: Vozes negras
Autoras: Amanda Condasi, Flor, Priscila, Isa Souza, Maria Ferreira e Pétala Souza
Se Liga Editorial
Páginas: 167 

Vozes Negras é um livro de contos escrito por mulheres pretas, contando histórias de representatividade preta. Maria Ferreira (@impressoesdemaria), Flor, Priscila (@aflorpriscila), Pétala Souza, Isa Souza (@blogparenteses) e Amanda Condasi (@amandacondasi) escrevem sobre amor, drama, sonhos, escolhas, liberdade e afrofuturismo. Tudo isso com uma base importantíssima: negritude. A representatividade está em cada vírgula, no conto da Maria, por exemplo, nós vamos refletir sobre o impacto que o racismo causa nas nossas escolhas diárias, nas nossas conversas, amizades e nas pessoas que escolhemos como parceiros. Quando o personagem Pedro abandona Amara, uma mulher negra, para se relacionar com uma mulher branca, Maria levanta um ponto importante: o racismo nos afasta de quem nós somos. O mesmo acontece com Enyin no conto de Pétala e Isa Souza, ela tem uma escolha a fazer: seguir os planos de vida "perfeita" que criaram para ela ou viver a vida que seus ancestrais construíram ao longo do tempo?

São muitos caminhos e reflexões, basta você adequar as histórias à sua realidade.

Coincidências: Este é o primeiro conto do livro, e nele você será estimulado a pensar sobre como o racismo influencia nas escolhas de homens e mulheres pretas, mas no caso das mulheres, nem sempre é uma escolha. Maria Ferreira nos traz a história de Amara, uma jovem preta e nordestina que se muda para São Paulo para cursar Letras. Na faculdade, ela faz amizade com Akin, Jamila e Dandara, jovens negros que serão importantíssimos para a adaptação da protagonista nesta nova jornada.

Nas férias, Amara vai visitar seus pais na Bahia e lá conhece um rapaz com características físicas parecidas com as de James Baldwin, e apesar de terem se conhecido fora da capital paulista, Pedro também é de São Paulo. 

Após a viagem, Amara e Pedro combinam de manter contato e as coincidências que vão acontecendo entre os dois parecem fortalecer este relacionamento. Os dois compartilham muitos passeios, conversas, músicas e gentilezas. Dessa forma, a intimidade parece evoluir. Mas de repente tudo muda, Pedro não responde mais as mensagens de Amara e para de interagir com ela nas redes sociais. O menino simplesmente some. Depois de muito sofrer, Amara descobre o que aconteceu, Pedro estava saindo com outra garota. Uma garota branca.

"Uma história de amor sempre é escrita a quatro mãos e dois corpos, às vezes até mais. O fato é que ele não quis escrever comigo."

Carimbos e memórias: Neste segundo conto atingimos o significado de "quentinho no coração", Flor, Priscila nos conta a história de Glória Maria, menina preta que vive em um bairro pequeno e que tem nos livros o seu grande refugio. Ela e suas amigas, Michele e Denise, estão em busca de um novo nome para a biblioteca da escola, que depois de sofrer com uma enchente, está sendo reformada e abastecida com livros. 

Em uma de suas buscas por doações de livros, Glorinha conhece a história de Carolina Maria de Jesus. Glória se sente, particularmente, impactada. Ela interroga sua professora sobre a desigualdade social e levanta questões que deveriam ser discutidas em todas as salas de aula do país.

A passagem de tempo é feita pela divisão do conto em mini-capítulos e neles acompanhamos o amadurecimento de Glorinha, e sua paixão em contar histórias através da escrita e da comunicação social. Conforme a leitura vai avançando você percebe a associação da história com a vida da famosa jornalista Glória Maria. Mulher negra que teve papel importante na representatividade de mulheres negras no audiovisual e no jornalismo.

"Nasci para comunicar e quero que as pessoas me ouçam"

Não existem sinônimos suficiente para o futuro: Combinando ancestralidade, cultura e ficção cientifica, somos levados para uma realidade não muito diferente da nossa atualmente. No conto, o mundo está vivendo um isolamento causado por uma pandemia de Omega Vírus. Nesta realidade, duas garotas pretas e gordas se encontram e partem em busca de suas verdadeiras identidades. 

Enyin foi criada para ser resistente ao Omega e vive sob isolamento, enquanto Aleduma é uma Colhedora-Rá com uma missão, levar Enyin para o quilombo. O que no início parecia ser métodos de proteção, o isolamento começou a se tornar uma ferramenta de higienização, pois muitas pessoas estavam sendo mudadas geneticamente para serem humanos "perfeitos". 

Além de ter que enfrentar os obstáculos de segurança, Ale terá que estimular Enyin a buscar por seus ancestrais e a lembrar de sua avó, mulher muito importante para a construção e desenvolvimento de Enyin. Neste conto, Pétala e Isa Souza nos trazem o afrofuturismo narrado em primeira, segunda e terceira pessoa. A busca por um futuro livre começa a se tornar cada vez mais real conforme a leitura avança e a escrita das autoras é muito importante para a imaginação do cenário. Não posso esquecer de mencionar o tom poético em algumas partes, o que gerou emoção e torcida para que as protagonistas enfim se encontrassem.

"Penso, logo me lembro dos que me antecederam, dos que estão comigo hoje e daqueles que estão por vir. Assim sou parte de um todo e assim existo"

Na ponta dos sonhos: Aqui chegamos no quarto e último conto da antologia, Amanda Condasi nos presenteia com a história de Dandara, uma jovem preta e periférica que sonha em ser uma bailarina de balé clássico. Quando ainda tinha poucos anos de vida, Dandara acompanhava sua mãe nas idas ao Lixão de Itaoca em São Gonçalo, em busca de objetos de valor para vender e se sustentar. Foi lá que em uma de suas procuras, Dandara achou um par de sapatilhas de balé e perguntou para a sua mãe para o que aquilo servia. Após ouvir a explicação, Dandara se apaixonou, dançar balé era o ela queria fazer.

O anos se passaram e Dandara já estava prestes a terminar a escola, ainda mantinha vivo o seu sonho de ser bailarina. Durante os anos ela praticou balé através de uma ONG, mas não durou muito tempo, então Dandara teve que recorrer aos estudos da arte pela internet. Em ritmo de vestibular, Dandara recebe uma novidade, vai ser inaugurada uma nova ONG Caminhos no bairro. Uma das atividades oferecidas será aula de dança, incluindo balé. Bom, essa era a oportunidade perfeita para Dandara voltar a ter aulas com uma professora profissional, e então ela foi atrás. Não vou dar spoilers, mas só quero dizer que os acontecimentos seguintes vão encher o coração. 

A representatividade no mundo da arte foi o tema perfeito para fechar o livro. Você se emociona e começa a pensar que seus sonhos são possíveis porque é isso que a representatividade faz, você enxerga a possibilidade de realizar.

"Nunca tive vergonha das minhas origens e, se hoje minha mãe não cata só lixo e tem um emprego mais digno, foi por muito tentar. Claro que não é e nunca será fácil, mas a gente insiste, persiste e quebra barreiras."

Vozes Negras foi lançado através de um financiamento coletivo iniciado em 2019, antes mesmo de saber sobre esse projeto, eu já seguia a Maria Ferreira no Instagram e acompanhava seu trabalho no blog Impressões de Maria (www.impressoesdemaria.com.br). Na época, eu consegui contribuir no financiamento, fazer parte dessa história, mesmo com uma pequena contribuição, é motivo de muito orgulho para mim. Então, é por meio dessa resenha que convido vocês a lerem este livro tão bem escrito e produzido. Peço também que apoiem iniciativas como essa, para que mais potências negras tenham voz.

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

10 comentários:

  1. Oi, Bruna como vai? Que resenha espetacular, parabéns! O livro parece carregar muitas reflexões em suas páginas, gostei da dica, pois desconhecia este livro. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Olá, Bruna.
    Eu vi que tem ele no KU e com certeza vou pegar para ler. Não sou fã de contos, mas vale só pelo que o livro significa. Eu estou participando de um desafio literário só com mulheres e estou vendo a dificuldade que é encontrar livros com autoras negras. Por isos acho que vale a pena a leitura.

    Prefácio

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  3. Muito obrigada por apoiar o Vozes Negras, Bruna! Tanto no financiamento quanto com essa resenha linda 💚💚💚

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  4. Olá Bruna,
    Não conhecia o livro, mas com certeza vou pegar para ler. História assim deve ser contadas, pois trazem grandes reflexões e podemos ver o ponto de vista de pessoas diferentes de nós. A resenha está sensacional.
    Bjssss


    Helo
    https://pensamentossoavento.blogspot.com/

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  5. Ahhh eu AMEI esse livro! Ele é TÃO necessário e mais ainda é preciso que a gente reflita sobre esses contos e os discuta! Coloquei na minha lista de futuras leituras.
    Beijo e obrigada por nos trazer essa preciosidade.
    Blog Apenas Leite e Pimenta ♥

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  6. Gente!!! Já quero ler o livro para ontem!! ♥ Tem cara de ser maravilhoso e repleto de lições que aquecem o nosso coração. E eu não sabia que a Maria fazia parte! A conheci na Bienal e eu achei ela bem fofa! :)

    Beijos, Carol
    www.pequenajornalista.com

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  7. Oi Bruna,
    Eu conheci o livro pelo twitter e gostei bastante da proposta.
    É muito interessante e necessária. Vou deixar anotado para ler, o bom é que tem no Unlimited.
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  8. Oie Bruna!

    Eu não conhecia o livro, confesso pra voce
    mas que legal que voce pôde participar e ajudar com essa publicação maravilhosa
    Tem no unlimited ♥
    E parecem ser contos lindos, singelos que tocam o coração, já quero ler 8)

    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  9. Oi, Bruna.
    Muito obrigada por sua leitura e resenha. É muito bom ver o quão bem você captou cada conto, em especial o meu.
    Fico feliz que tenha gostado. Muito obrigada mesmo pelo apoio <3
    Um abraço.

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  10. Olá Bruna,

    Não conhecia o livro, mas acho super importante esse tipo de leitura e reflexão, ótima resenha e dica.


    Beijos.


    http://devoradordeletras.blogspot.com/

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