01/04/2020

 

O Poço: uma reflexão sobre desigualdade

Nesta prisão, a comida é distribuída de cima para baixo. Quem está nos andares de cima come à vontade. Quem está embaixo fica com fome. Um prato cheio para uma rebelião.

Primeiro: que filme! Na minha concepção, e de muitos que vi comentando, O Poço fala sobre desigualdade, egoísmo e tudo de podre que o ser humano pode mostrar. 

Dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, o original da Netflix nos traz a história de prisioneiros que vivem em uma prisão vertical. Cada andar possui duas pessoas, e no meio deles, um buraco que permite a descida de um banquete. A dinâmica é simples: são mais de 300 andares, a comida vai descendo, para por alguns minutos em cada andar e neste momento, os presos comem o máximo que puderem. 

Conforme a bancada vai descendo, a comida vai diminuindo, quem estiver na plataforma 140, por exemplo, vai passar fome por pelo menos um mês. Importante lembrar que as pessoas vão mudando  de lugar a cada 30 dias, se hoje a dupla acordou no andar 6, no próximo mês eles podem acordar no andar 100. Nada é previsível.

Aqueles que estão acima sempre comem mais e não ligam para quem está embaixo, eles nunca falam com quem está em um lugar inferior, babam e cospem na comida e não pensam em divisão. O cenário escuro e fechado contribui no efeito de aflição que o enredo provoca, e não só isso, não há cenas externas. Você nunca sabe se é dia ou se é noite, ficamos no escuro como todos os personagens.

Personagens
O nosso protagonista é Goreng, ele não cometeu crime algum, aliás, não sabemos muito da vida dele fora do poço, a não ser sua vontade de parar de fumar e de finalizar a leitura de Dom Quixote. Ao se encontrar lá dentro, ele conhece Trimagasi, um senhor que vai explicar como que funcionam as coisas e quais são as regras. De início, Goreng tenta conversar com quem está acima para uma tentativa de conscientização, mas como eu disse, quem tá comendo bem não ouve quem está embaixo. Será que ele vai se entregar àquela realidade?

Para Trimagasi, tudo ali é muito óbvio, já absorvido pela realidade do consumo, ele sabe que o negócio é comer ou ser comido, depende de que classe você está. Goreng também vai ter que conviver com outros personagens que podem representar a consciência de classe, otimismo e até a esperança. 

Ponto de reflexão
É interessante analisar este cenário, no livro "Ética e Cidadania", de Silvio Gallo (1997), tem um trecho que ilustra bem o que assistimos. "A capacidade de transformar as vontades dos outros na sua vontade é aquilo que chamamos de poder", ou seja, vence aquele que tem mais recurso. No filme, sempre "vence" aquele que está acima ou é mais esperto, os primeiros andares recebem a comida inteira, sem bagunça, sem sujeira, sem restos. Se os outros não vão ter o mesmo privilégio, o que isso importa? Eles vão ter que se virar.

O ponto é, há comida para todos e se houvesse o sentimento de cidadania, a dupla do andar 140 comeria como a dupla do andar cinco. O que ilustra também as grandes desigualdades dos centros urbanos, onde a cidade se divide entre periferias e condomínios. Dá para tirar muitas verdades dessa história, a mensagem que mais batucou na minha cabeça foi que, o ser humano só toma decisões levando o seu interesse em consideração. As vezes, deixando de lado a ética e a empatia pelo próximo.

Para finalizar, o meu questionamento é: até que ponto alguém pode chegar, quando se encontra em um estado de vulnerabilidade?

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

8 comentários:

  1. Caramba eu não consegui continuar esse filme muito pesado hahaha não deu...

    Segredosdamarii.blogspot.com

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  2. Oi, Bruna como vai? Excelente a reflexão que este filme trás à sociedade. Eu não assisti, mas é importantíssimo essa reflexão que o filme aborda. Infelizmente o ser humano é capaz de atos inimagináveis para se dar bem às custas dos outros. É assustador, até. Mas é real. Adorei a sua resenha. Se cuida. Abraço!


    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  3. Olá, Bruna.
    Esse filme parece trazer uma reflexão necessária. Ainda mais nos dias em que estamos vivendo. Assim que der vou assistir ele porque achei interessantíssimo.

    Prefácio

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  4. Deu vontade de assistir.

    juliamodelodemodelo.blogspot.com

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  5. Me interessei bastante pelo filme. Ele é bem reflexivo. Parabéns pela resenha.
    Gostei do blog. Estarei por aqui agora.

    Bom fim de semana!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

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  6. Eu escutei falar desse filme. Tenso e triste, né? Imagino. Apesar de achar importante, não sei se assistiria no momento, sabe? É bom para conscientizar, sem dúvidas, e rever nossos conceitos sobre essas diferenças. Enfim, vai entrar para a minha listinha, porém, mais para o futuro!

    Beijos, Carol
    www.pequenajornalista.com

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  7. Oi Bruna,
    Eu ainda não assisti ao filme. Vi o destaque na Netflix, mas achei que não faria muito meu estilo... Só que pela sua resenha, são reflexões interessantes, vou tentar ver esse final de semana.
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  8. Olá!

    Esse filme nos traz muitos questionamentos. Ouvi um podcast onde um dos participantes que assistiu ao filme, já havia lido Don Quixote e disse que tem muito do livro na história e no personagem. Mas voltando a reflexão sobre desigualdade, isso só acontece porque o ser humano é muito egoísta e isso vai gerando uma reação em cadeia... Assistindo ao filme me lembrei do livro que estou lendo "O Ensaio sobre a Cegueira", onde todos se encontram na mesma situação, mas sempre tem aquele que quer sair por cima e o que você escreveu resume bem todas essas obras que se cruzam "o ser humano só toma decisões levando o seu interesse em consideração. As vezes, deixando de lado a ética e a empatia pelo próximo."

    Até!

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