08/04/2020

 

Ficção x realidade: A Vida e a História de Madam C.J. Walker


A Vida e História de Madam C.J. Walker é uma minissérie de quatro episódios que estreou na Netflix no dia 20 de março deste ano. Ela conta a história da primeira mulher a ficar milionária nos Estados Unidos com a venda de produtos de beleza. 

Partindo do pressuposto que a personagem realmente existiu, podemos pensar que é uma biografia fiel, mas não é. O erro foi traduzir como "vida e história", quando na verdade foi um enredo inspirado na vida de Madam.

Enredo
Mulher negra, Sarah Walker (Octavia Spencer) era uma lavadeira casada com Charles Joseph Walker (Blair Underwood) e tinha uma filha chama A'Lelia Walker (Tiffany Haddish), fruto de seu primeiro casamento. A abolição nos EUA era algo recente, então, o racismo e a falta de oportunidade para pessoas não brancas estava no auge. Um certo dia, Addie Monroe (Carmen Ejogo), mulher para quem Sarah lavava roupa, ofereceu um produto capilar que prometia fazer os cabelos de Walker crescerem fortes e saudáveis. Este produto foi criado pela própria Addie.

Os cabelos da Sarah cresceram, ficaram fortes e ela se apaixonou por todo aquele processo de reconstrução capilar. Chegou a se oferecer para ajudar na venda do produto, pois confiava na sua habilidade de venda, mas Addie não aceitou, pois Sarah não tinha a "imagem" que ela gostaria que sua marca passasse. Aqui vale um adendo importante: Addie era uma mulher negra de pele clara e cabelos cacheados. Sarah era uma mulher negra de pele escura e cabelos crespos. Então, já sabemos que colorismo é um dos assuntos pautados durante a narrativa.

Bom, depois de ser humilhada, Sarah determinou que nunca mais lavaria a roupa de ninguém e criaria seu próprio produto para cabelo. E assim fez, pegou a formula de Addie e melhorou adicionando o uso do pente quente para deixar os cabelos mais lisos. Porém, nada seria tão fácil, a partir deste ponto, mudanças na rotina de Sarah começam a acontecer. Ela e sua família se mudam para Indianápolis, onde se estabelece como empresária e abre sua base de negócios.

Além de precisar lidar com as armações de Addie, Sarah também terá que passar por cima do racismo e do machismo para conseguir espaço no mercado. Ela será sabotada, traída e desdenhada por pessoas brancas e por pessoas que estavam do seu lado o tempo todo. Não foi um caminho fácil, mas como não é spoiler, sabemos que Sarah, ou melhor, Madam C.J. Walker consegue estabelecer a sua marca e se torna milionária. Sim, meus caros leitores, uma mulher negra foi a primeira mulher a se tornar milionária de forma independente nos EUA.

Ficção x realidade (pode conter spoiler)
Como dito ali no início, essa minissérie é inspirada na vida de Sarah Walker, portanto, não há nenhum compromisso com a história real da protagonista. Depois de assistir, eu fui pesquisar sobre Madam, pois como parte das pessoas que assistiram, eu não conhecia os detalhes sobre ela. O choque veio quando eu descobri que Addie é, na verdade, uma personagem fictícia baseada em Annie Malone, uma mulher que contribuiu bastante para a indústria da beleza naquela época (seu legado perdura até hoje). Diferente do que é retratado na minissérie, Annie não era mais clara que Sarah, então, isso nunca foi motivo de divergência entre elas.

Segundo o site Mundo Negro, tanto Sarah quanto Annie eram filhas de escravos e tinham a mesma tonalidade de pele. Porém, Annie teve mais oportunidades que Sarah para estudar e tinha uma habilidade maior em química, apesar de nunca ter feito faculdade. Sarah era vendedora de Annie, que por sua vez, foi mentora de Walker durante muito tempo. Por isso, essa intriga das duas na obra da Netflix foi bastante criticada pelos expectadores americanos. A forma superficial com que Annie foi retratada diminuiu a sua representatividade.

Eu senti falta de ver o processo de criação e utilização do produto feito por Sarah. Nas cenas em que ela conversava com as clientes, fiquei me perguntando se não seria explicado o modo de usar, etc... Eu usei química no cabelo durante um tempo, então, ver como era esse processo no início do século XX seria muito interessante. Não houve um destaque para os produtos em si, a impressão que tive foi que o atrito entre Sarah e Addie era o mais importante na história.

A forma como a filha de Sarah foi retratada na série é um outro ponto para discutir, pois faltou um pouco de profundidade. Ela acaba se envolvendo amarosamente com uma mulher, mas essa representação é apenas ficção, pois na realidade A'Lelia só relacionou com homens.

Ativismo
A riqueza de Madam ia aumentando conforme sua marca ia se consolidando no mercado, e a medida que sua  imagem crescia, ela se tornava voz de alguns movimentos sociais. Além da filantropia, Madam também ficou conhecida por levantar fundos para várias instituições que beneficiavam pessoas negras. Uma delas foi a escola de Mary McLeod Bethune para meninas negras, onde mais tarde se tornou a Universidade de Bethune-Cookman. Essa parte não é aprofundada nos quatro episódios da minissérie, mas acredito ser importante pontuar aqui neste post, até para poder incentivar a pesquisa de vocês sobre Sarah Walker.

Independente dos poréns, eu recomendo que todos tirem um tempo para ver essa minissérie, adorei conhecer a história de Madam C.J. Walker. Imagina ser uma pessoa que teve a família escravizada, viver em um país onde você não é tratado como pessoa e receber todo tipo de discriminação, mas ainda assim, conseguir realizar um sonho. Madam era a exceção da regra, mas bastante representativa, pois a vida de muitas pessoas negras mudaram a partir de sua luta.


Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

8 comentários:

  1. Oi, Bruna como vai? A minisérie me parece interessante, apesar das distorções que há nela. Apenas 4 episódios, poderiam ter feito mais alguns episódios assim teriam como ter contado mais sobre a vida de Madam C.J. Walker sem todas essas distorções que você citou. Sua análise ficou incrível, parabéns. Abraço!



    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Olá,

    Não o tipo de minissérie que me atrai, por isso vou deixar passar essa dica, apesar de achar até interessante.

    Bjs
    http://diarioelivros.blogspot.com

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  3. Eu assisti a série e gostei muito. No meu ponto de vista a serie retratou tudo o que você criticou em Addie. No final ela assume que realmente copiou a fórmula. O embate das duas (Simulados nos flashback de luta) se deu porque Addie desprezou-a achando que ela era simples (Feia)de mais para representar o produto e então o mesmo seria um fracasso.

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  4. Olá, Bruna.
    Eu já coloquei na minha lista desde que vi que era com a Octavia que é alguém que gosto muito. Não sabia sobre essa diferença com a história real. Já que o título é a vida e a história deveriam pelo menos ter seguido a risca a verdade sobre ela. Mas já viu adaptação eu nem me decepciono mais porque já sei que vão mudar tudo.

    Prefácio

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  5. Opa, tudo bem por aí?

    Eu AMO a Octavia Spencer! Eu a considero uma atriz incrível e admiro muito o seus papéis que dão voz à população negra. Sabemos que, atualmente, o racismo ainda está presente entre a população e, quanto mais tivermos pessoas negras como protagonistas, seja em séries, filmes e até mesmo livros, melhor! Parece ser uma obra maravilhosa e que, com certeza, irei assisti-la.

    Abraços!
    Acampamento da Leitura

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  6. Oi Bruna!
    Eu ouvi muita gente falando dessa história e quanto mais leio a respeito, mais curiosa para assistir eu fico. Com certeza vai ser uma das primeiras coisas que vou ver quando assinar novamente a Netflix.
    Os Delírios Literários de Lex

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  7. Oi Bruna!
    Tem muitas pessoas me recomendando essa minissérie, preciso assistir.
    Quero fazer isso entre hoje e amanhã. Vou me emocionar!
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  8. a octavia é incrível! de fato a série ficou muito boa, eu já havia lido sobre a madam durante a faculdade, algumas coisas me deixaram com a pulga atrás da orelha também, mas foi bem conduzido e cumpriu o dever, apesar de ter deixado passar algumas coisas que seria realmente interessantes, como tu comentou, os processos e a química, talvez focar na competitividade que existiu do mercado em si e não criando uma ênfase no conflito de raça... mas flui.

    mandou bem :D
    xoxo

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