28/02/2020

 

Stupid Love e a inesgotável fonte oitentista


Não é novidade: Os anos oitenta voltaram pra ficar. Não estão mais só nos fones de ouvido. Audiovisual, moda, estética e conceitos diversos atualmente mergulham nesse poço neon, nerd e apoteoticamente tecnológico que são os 80's. E esse refresco nostálgico é lindo, mas mal estruturado. Estamos revivendo só o que querem nos mostrar, e eu explico.

Assim como a pochete, o Strokes parece ter voltado com tudo. A banda que prometeu um novo rock quando surgiu, cumpriu a promessa e é um dos estopins do que chamamos hoje de indie rock. E assim como tem acontecido com qualquer outro supergrupo, prometeram uma volta depois de longa pausa. E, seguindo o fluxo, assaltaram os anos 80. Assaltaram no sentido literal, pois o último lançamento 'Bad Decisions' tem no refrão o mais descarado plágio do ano até aqui. 'Dancing With Myself', de Billy Idol, se revira no túmulo post punk em que foi enterrada. Mas a música não é ruim! Longe disso, aliás. O clipe tem uma tematica gore baseada na televisão e no cinema de horror da época, tal qual produções famosas como Stranger Things ou It: A Coisa, muito bem feita e com crítica inteligente. Mas será que é só desse vintage mal acabado e blasé que viveu o cidadão oitentista?

Hoje mais cedo, um dos pilares da música pop atual renasceu mais viva do que nunca. Lady Gaga lançou 'Stupid Love', um mergulho subversivo no dance e na marginalidade do trash vindos da mesma época citada. Um conceito completo, audio e visual. O clipe tem referências diretas ao que surgiu nos clubes de subúrbios americanos da década, onde as minorias se encontravam e se tratavam igualmente. (Vide o episódio San Junipero de Black Mirror). Muito do que hoje é a aclamação visual do cyberpunk foi o convívio entre punks e drag queens que fugiam da repreensão nos becos suburbanos. As referências no clipe passam ainda por games, cultura asiática e afro. A textura 'mal feita', é proposital. Afinal, uma pessoa da altura de Lady Gaga não faria nada de forma mal pensada. O resumo é: Nos educaram a cultuar o conservadorismo oitentista. O que ditou moda e tendência na época, aconteceu na margem. Gaga está reverenciando as minorias em uma obra conceitual e completamente imersa em referências, e a própria minoria está negando toda sua origem e criticando uma escolha proposital e muito bem calculada, aliás.

O pop é acessível, como qualquer gênero musical. O que nos impede, então, de fugir da segregação e passar a nos questionar sobre o que realmente não gostamos ou não queremos entender?


Renan Augusto Dias
Instagram: @renanaugusto.dias

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