17/12/2019

 

Resenha: Quarto de Despejo - diário de uma favelada

Título: Quarto de Despejo - diário de uma favelada
Autora: Carolina Maria de Jesus
Editora Ática
Páginas: 199

“E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome” 

Publicado em agosto de 1960, Quarto de Despejo chegou ao meu conhecimento através das acadêmicas e ativistas que comecei a seguir aqui na internet. Carolina era uma mulher negra, favelada e catadora de papel que tinha como refúgio os livros e o seu diário. 

Todos os dias Carolina acordava e não sabia se iria comer e alimentar os seus filhos, ela morava na extinta favela do Canindé, em São Paulo e o seu sustento era catar papel, ferro e lixo. A rotina era assim de domingo a domingo, a infelicidade de morar em um lugar sem condição humana era relatada de forma dura e objetiva em seus manuscritos. 

“Eu classifico São Paulo assim: O palácio é a sala de visita. A prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos” 

Carolina Maria nasceu em Sacramento (MG), foi para São Paulo e começou a trabalhar como podia para sobreviver. Quem a descobriu foi o jornalista Audálio Dantas, que na intenção de fazer uma reportagem na favela, acabou conhecendo os seus diários. Impressionado com a potência, Audálio mostrou os textos para o seu editor e assim seguiu para a publicação. A escrita se manteve original e os erros gramaticais não são um incômodo, muito pelo contrário, manter a originalidade tornou o livro uma ferramenta de denúncia da realidade do brasileiro marginalizado na década de 1950. 

Em muitos momentos a rotina de Carolina era a mesma: acordar as 5h, buscar água, ouvir as mulheres conversando sobre os acontecimentos da comunidade, fazer um café (quando tinha) e sair para catar papel, ferro e reciclagem, sempre com a incerteza de ter dinheiro para comprar comida. Mas além de toda essa rotina, Carolina tinha opiniões fortes sobre a política e os moradores do Canindé. Era nítido como ela se incomodava com o comportamento dos favelados, com os políticos e a hipocrisia da sociedade. A violência, a miséria e a fome são personagens principais nesta história. 

“O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”

Carolina também fala que as pessoas se preocupam com o que acontece na favela, mas ninguém aparece com a solução. Aconselhavam os favelados a não tomarem água contaminada, mas nada era feito para que a água potável chegasse aos favelados. Nesse sentido, Carolina faz várias críticas aos “sábios” e estudados que iam na favela dizer como a comunidade deveria viver. Ela não gostava da sua condição, não há uma romantização da pobreza em nenhum momento do livro, a autora depositou todo o seu olhar, sem carinho algum, na realidade do pobre. 

“Duro é o pão que nós comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado” 

Quarto de Despejo vendeu milhares de cópias e chamou a atenção de diversos países, sendo traduzido para 13 línguas, além de ser objeto de estudos culturais e sociais até hoje. 

Este livro causou em mim muitas reflexões e só confirmou o que já sabíamos: o Brasil sempre foi um país de alta desigualdade social. Nunca tivemos bons momentos, os ricos sim, mas os pobres e negros, não. O olhar de Carolina abriu a minha mente para o que me cerca e me fez entender que existe um abismo enorme entre ser pobre e estar na miséria. Este livro não é confortável de ler, não é feliz e muito menos leve, é a mais dura realidade do cidadão marginalizado e sua eterna busca por uma vida melhor em um lugar onde o rico fica mais rico e o pobre fica mais pobre. 

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos

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12 comentários:

  1. Oi, Bruna como vai? Que resenha maravilhosa, eu adorei! Esse livro da Carolina Maria de Jesus é excelente, pois mostra uma faceta horrível dos políticos podres que governam, governaram e provavelmente sempre governará este país, onde os poderosos sempre tirarão proveito em detrimento da classe mais pobre de nossa sociedade, infelizmente. É um livro bastante realístico, nos mostrando a dura realidade de muitos (grande maioria da população que vive em extrema miséria ) para sobteviverem. Abraço!

    https://lucianootacianopensamentosolto.blogspot.com/

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  2. Olá, Bruna.
    E o mais triste é saber que 60 anos depois nada mudou. Se mudou foi para pior com tanta gente roubando o pouco que era para ajudar os menos favorecidos. Gostei bastante da dica e assim que der vou ler ele.

    Prefácio

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  3. Olá...
    Ainda não conhecia o livro, mas, pelo que pude perceber é uma obra bem real e acredito que faça o leitor refletir muito! Vou anotar sua dica para ler no futuro...
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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  4. Não sei se é o estilo de livro que me chamaria atenção em um primeiro momento. Mesmo assim gosto de leituras que nos causam reflexão. Fiquei curiosa...

    www.vivendosentimentos.com.br

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  5. Oie!
    Não conhecia o livro, mas gostei bastante da premissa, parece um livro que levanta reflexões bem importantes!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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  6. Bom dia,

    Já tinha ouvido escutar a respeito do livro e gostei bastante da sua resenha.

    Um beijo e Feliz Natal!!

    www.purestyle.com.br

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  7. É triste, mas é a realidade a desigualdade social do Brasil. É só a gente olhar para o nosso vizinho, ir na rua e já vemos situações de fome.
    É triste, mas é um livro que aparentemente apresenta tudo que a sociedade precisa saber, né?

    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  8. Olá,

    Não conhecia o livro, mas a história pelo visto é bem reflexiva.
    Triste realidade de muitos até hoje.


    Bjs
    https://diarioelivros.blogspot.com/

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  9. Gosto muito de livros que tragam mensagens reais e que nos levam a refletir. Não conhecia a obra mas não tem ideia de como me deixou curiosa para a leitura. Já imagino que vá me deixar bem impactada com os desabafos contidos ali mas parece ser uma leitura mais do que indispensável.
    Infelizmente o Brasil não parece querer evoluir. É triste.

    Abraço,
    Larissa | Parágrafo Cult

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  10. Oie,
    Adorei a resenha. Esse livro deve ser espalhado para que todos aqueles que não conhecem leia imediatamente. Principalmente para aqueles que, como você disse, romantizam a pobreza, para aqueles que vangloriam uma mulher trabalhar de domingo a domingo do jeito que pode como algo super legal. E para aqueles que acham que as pessoas são faveladas e vivem em condições minimas porque querem. Ninguém quer passar fome, ninguém quer viver consumindo água contaminada.
    Muitos precisam acordar para essa realidade.
    O livro pode ser de 1960, mas não poderia ser mais atual.
    Ótima recomendação!
    Beeijo e feliz ano novo!

    Grazy Carneiro
    Meus Antídotos

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  11. Oi Bru!
    Parece ter sido uma leitura potente viu. Intensa. Eu imagino o quao indignado a pessoa deve ficae com a situacao precaria desse pais em detrimento do tratamento diferenciado de uma pessoa pra outra.

    Abraços
    Emerson
    http://territoriogeeknerd.blogspot.com/

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