07/08/2019

 

Resenha: A metamorfose

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado numa espécie monstruosa de inseto”. 

Não importa quantas vezes você possa ler este livro, A Metamorfose sempre vai ser difícil de digerir. Há tantas interpretações que demora um tempo para colocar os pensamentos em ordem.

Título: A metamorfose
Autor: Franz Kafka
Edições BestBolso
Páginas: 78 

Gregor Samsa é um caixeiro viajante, em outras palavras, um representante de venda. Depois que os negócios da família foram a falência, Gregor ficou responsável por pagar as dívidas e sustentar o pai, Herr Samsa; a mãe, Frau Samsa; e a irmã, Grete Samsa. Porém, um infortúnio estragou os planos e a boa vida que a família tinha devido aos esforços do filho mais velho. Como a frase inicial explica, o personagem Gregor acordou transformado em um inseto. Kafka não especifica qual, mas pela descrição eu imaginei uma mistura de barata com besouro, algo bem nojento. 

A partir desse momento, começamos a acompanhar a nova rotina desses personagens que tem a vida virada de cabeça para baixo. Gregor fica impossibilitado de sair de casa e por consequência não trabalha mais. A falta de renda obriga os Samsa a correr atrás de trabalho e alugar um quarto do apartamento para três inquilinos. Em meio a essa reviravolta, nosso personagem inseto fica preso em seu quarto, onde a família mal tem coragem de entrar e o esconde de tudo e todos por pura vergonha. 

Grete, a irmã caçula, é a única que mantém sua visita no quarto para alimentar o irmão e limpar o ambiente. Aqui eu gostaria de destacar a frieza com que o narrador descreve todas essas situações. Não há drama, é tudo descrito com simplicidade e de forma objetiva. Acontece isso, isso e ponto. 

A família dessa novela sofre uma dificuldade de comunicação em relação a Gregor por causa da sua forma desajeitada e tamanho desproporcional ao lugar em que vive. Ele sente muita dificuldade de se locomover e acaba sempre passando uma mensagem de ameaça, quando na verdade, ele só queria manter uma aproximação de seus familiares. Sua preocupação era que todos ali entendessem que ele ainda estava racional e consciente do estava acontecendo, mesmo cedendo a alguns instintos de inseto. 

Gregor Samsa tinha planos de vida, queria terminar de pagar as dívidas do pai para se livrar do trabalho cansativo e mandar a irmã para um conservatório de música, mas sem nenhuma explicação, ele se encontra parasitado. Esta é a famosa situação Kafkiana, onde algo que não podemos controlar toma conta da nossa vida e não há nada que se possa fazer. 

Durante a leitura, enquanto levava tudo de forma literal, eu senti falta da sensibilidade dos familiares e senti falta da sensibilidade do próprio Gregor para se compreender. Mas por outro lado, se eu entender esta história como uma metáfora, eu poderia divagar em várias interpretações e perceber que a narrativa não seria genial se tivesse o drama de um romance. 

O inseto em questão acaba se tornando um fardo, poderiam acabar com tudo aquilo em um único dia, mas por consideração familiar eles sustentam a ideia de deixar Gregor escondido no quarto. Após a leitura, eu fiquei triste, mas não me perguntei se estou metamorfoseada, eu me perguntei se estou em alguma situação fora de controle, se estou carregando algo comigo por pura consideração e se isso está pesando no meu crescimento pessoal. 

Em seguida, pensei que Franz Kafka poderia estar fazendo referência a uma pessoa que fica doente e transforma a rotina da sua família. Meus pensamentos foram nos excluídos dentro da sociedade e que são tratados de forma fria, onde as pessoas só os sustentam por pena ou conveniência. Não há como contestar a genialidade do autor em pegar uma narrativa simples e permitir extrair tantas interpretações. Esta é uma leitura rápida e que vale muito a pena fazer uma reflexão.

Bruna Domingos
Instagram: @brunadominngos


4 comentários:

  1. Olá, Bruna

    Não sabia que era uma história tão curta. Acho que sua dedução até que faz bastante sentido, sobre ser uma analogia a um doente e o "fardo" que a família carrega por motivos, às vezes, nem tão nobres assim. Interessante!

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  2. qUE INTERESSANTE, Bruna
    e que cult!
    Adorei... Tenho vontade de ler esses autores mais clássicos
    e que interessante a forma como ele abordou os familiares, os sentimentos ... e mesmo o ato de fazer tudo rotina transformar totalmente como podemos viver a vida, né?
    Adorei a resenha!
    Beijocas da Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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  3. Gosto desse tipo de história, onde o autor constrói uma narrativa que faz a gente se questionar sobre o que ele quer falar nas entrelinhas... várias interpretações.. Nunca tinha ouvido falar desse livro. Muito interessante.

    www.vivendosentimentos.com.br

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  4. Oie,

    Não é muito meu tipo de leitura, mas fiquei curiosa com a trama.
    Quem sabe mais para frente eu leia.

    Bjs e um bom fim de semana!
    Diário dos Livros
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